Haiti sob Estado de Sítio

Presidente Jovenel Moise assassinado

Por Júlio Turra

Na madrugada de 7 de julho, o presidente Jovenel Moise, odiado pela maioria do povo do Haiti, como mostraram grandes manifestações que exigiam a sua saída do poder nos últimos meses, foi assassinado por um “comando” armado que invadiu a sua residência privada, num bairro nobre de Porto Príncipe. Sua esposa sobreviveu ao ataque e hoje recebe tratamento vip em Miami (EUA), enquanto nenhuma dose de vacina contra a Covid-19 chegou ao país.

Haiti - protesto contra Moise em 2019
Haiti – protesto contra Moise em 2019

O episódio é nebuloso, pois a segurança do auto-proclamado presidente – sim, pois seu mandato, de acordo com a Constituição, deveria ter acabado em 7 de fevereiro passado – e no próprio bairro rico que habitava era muito grande.

Menos de 24 horas antes do assassinato, Jovenel havia demitido o primeiro-ministro Claude Joseph e nomeado em seu lugar Ariel Henry que não chegou a tomar posse.

Logo após o assassinato. Ariel Henry soltou uma nota pedindo calma. Mas o “demitido” Claude Joseph editou um decreto de Estado de Sítio por 15 dias, declarando que, na vacância do presidente, o “primeiro-ministro [ou seja, ele próprio] exerce o poder executivo até a eleição de outro presidente”. No mesmo decreto ele diz que “o assassinato foi perpetrado por um grupo armado formado por estrangeiros”.

O chefe da polícia anunciou que quatro membros do comando que assassinou Jovenel foram mortos e dois outros foram presos. O ministro da Cultura declarou que há haitianos entre eles.

Golpe de Estado com o próprio veneno de Jovenel

Tudo leva a crer que, no quadro de um acerto de contas entre máfias e gangues ligadas à elite corrupta do país, Claude Joseph deu um golpe e se prepara para permanecer no poder.

Jovenel Moíse foi vítima dos mesmos métodos violentos que ele mesmo usou muitas vezes contra o povo, desta vez por parte de outros setores da mesma elite serviçal ao imperialismo dos EUA. A polícia – recorde-se que ela foi treinada pela Missão da ONU (Minustah) que ocupou o Haiti entre 2004 e 2014, sob comando militar brasileiro, com generais que estiveram ou estão no governo Bolsonaro – e o exército se juntavam às gangues armadas para aterrorizar os bairros populares. Agora o veneno se voltou contra um de seus utilizadores.

Certamente o povo haitiano não está chorando pela morte de Jovenel, como fazem chefes de Estado, a OEA e a ONU com suas lágrimas de crocodilo. Tampouco as organizações sindicais e populares que puxaram enormes mobilizações contra o presidente que agora foi assassinado por seus pares.

O que desde já está claro é que, como Jovenel fechou o Parlamento e impugnou arbitrariamente juízes da Corte suprema, não há qualquer aparência de legalidade constitucional na auto-proclamação do primeiro-ministro demitido. Seguiremos acompanhando os fatos, confiantes que as organizações populares, sindicais e democráticas do povo haitiano – apesar das dificuldades impostas pelo Estado de Sítio e a repressão – logo darão uma resposta a esta situação e exigirão que a palavra seja dada ao povo em eleições livres e democráticas, para que a soberania popular e nacional se imponha e acabe com as máfias violentas que se apossaram do poder no Haiti – sempre com o beneplácito do imperialismo – a serviço de uma minúscula elite que chupa o sangue do seu povo.

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