EM DEFESA DO PT

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“Viemos aqui porque tínhamos um grito preso na garganta”

Convocado pelo Diálogo Petista, Ato “Em defesa do PT” reúne mais de 500 militantes

O auditório do Sindicato dos Engenheiros em S. Paulo ficou lotado na noite do dia 24, enquanto fora, os que não puderam entrar acompanhavam num telão. 450 assinaram a lista e mais 3.000 assistiram a transmissão online do Diretório Regional.

Convocado na abertura do 5º Encontro Nacional do Diálogo Petista, afluíram ao ato centenas de militantes, jovens, sindicalistas, parlamentares e intelectuais com o mesmo sentimento: o partido não pode ficar sem reagir à ofensiva orquestrada desde o Supremo Tribunal Federal (STF), que visa atingir o PT e as organizações do povo trabalhador.

Três dias antes, a mesma mídia que aplaude o STF e faz pirotecnia para encobrir seu verdadeiro interesse de destruir o que os trabalhadores foram capazes de conquistar, acusava de “golpista” os que ousavam denunciar a farsa desse julgamento.

O ato do dia 24 foi uma retumbante resposta. A base do PT, chamada, não vacilará em defender o partido, as organizações da cidade e do campo, e os direitos democráticos ameaçados por esse julgamento de exceção.

Falaram no ato

Markus Sokol, membro do Diretório Nacional do PT (Corrente O Trabalho), Aton Fon, da Consulta Popular, José Genoíno e José Dirceu, ex-presidentes do PT e membros do Diretório Nacional, Eduardo Suplicy, senador, Gegê, da Central de Movimentos Populares, Adriano Diogo, deputado estadual , Jaci Afonso, Secretário de Organização da CUT, e Julio Turra, membro da Executiva da CUT e da Coordenação do DP.

Markus Sokol

Viemos aqui porque tínhamos um grito preso na garganta. Já são quatro longos meses, o partido sendo atacado, a militância desmoralizada na campanha, e a direção, é preciso dizer, preferiu adiar a reação.

Mas começou. Tem razão a nota da CEN quando denuncia o julgamento político – enumera as extrapolações e violações – e chama à defesa do PT.

Por que esse ataque e por que agora?

Sabemos o pano de fundo. O mundo capitalista está em crise crescente. Eles precisam retomar o poder em mãos e, em posição completamente subordinada, se puderem, amarrar as organizações populares domesticadas.

Era inevitável?

Sim, alianças são necessárias para realizar as aspirações populares no governo, mas com partidos afins, como o PCdoB, e setores populares de outros partidos (PSB, PDT…) dispostos a marchar conosco. Mas o caminho escolhido foi a coalizão com partidos que estão aí para qualquer maioria. E agora, nesse ataque ao PT, a coalizão cobra seu preço! Por fim, são os filiados do PT que devem avaliar os erros dos seus dirigentes.

Mas o STF quer condenar o que seria uma exceção, o PT, para assim salvar a regra do sistema.

Hojeviemos aqui defender o PT contra a sanha condenatória do STF. Viemos aqui por que não acatamos, temos o direito de não acatar e contestar esta violência contra a democracia.

Por isso, um editorial do Estadão esta semana me acusou de golpista. Logo ele, que apoiou o golpe de Estado de 64!

A hora é da mais ampla unidade no interior do PT em defesa do partido fundado pela “vontade de independência política dos trabalhadores, já cansados de servir de massa de manobra para partidos e políticos comprometidos com a atual ordem econômica, social e política”.

Aton Fon

Os juízes abandonaram o seu papel constitucional para se tornar algozes, consumando um golpe contra o povo e a democracia.

Desde o começo, estava decidido que a justiça não seria feita e a punição imposta. O direito de defesa foi violado. Companheiros tiveram negados direitos. Foi um golpe contra o principio do juiz natural ao permitir-se, o STF, julgar quem não estavam sob sua autoridade, quem não poderia ter julgado. O STF violou o princípio da igualdade de todos perante a lei. Esse mesmo STF que protegeu autoridades do PSDB.

Esse é um momento em que fomos golpeados, também um momento que nos leva a erguer nossas cabeças. Golpeados não foram somente os processados, não foi somente o PT.

Esse ato é uma manifestação em defesa de todos nós, porque todos nós fomos golpeados pela ação do STF. A Consulta Popular se sente golpeada junto com os condenados, e exige seu lugar na luta contra os golpistas! Somente essa unidade pode nos levar à revogação dessa condenação golpista.

Genoíno

A crueldade faz renascer nas grandes almas o valor da vida, da justiça, democracia, liberdade e solidariedade. É assim que me sinto aqui com os companheiros que convivo no PT, na maioria das vezes divergindo, e muitos que não são do PT e estão nesse ato.

Meu sigilo bancário e telefônico foi quebrado, nada foi encontrado.

Estou sendo condenado por ter sido presidente do PT. Fazia um trabalho de disputa intensa na época difícil do início do governo Lula, de aliança e coligações. Enfrentava a situação, não comprava votos.

A luta me ensinou a valorizar as instituições do Estado democrático de direito. Serei obrigado a cumprir as decisões do STF. Mas a democracia me dá direito de discutir valores. O direito penal não pode se basear na narrativa sem prova concreta, a presunção da inocência é um valor fundamental da democracia universal, o ônus da prova é da acusação, o domínio do fato não elimina a necessidade da prova, o amplo direito de defesa foi uma conquista democrática de lutas seculares.

Setores da imprensa não podem fazer campanha pela condenação de maneira que aja pré-julgamento e linchamento político.

Considero a minha condenação uma injustiça, sou inocente.

Sou um militante de esquerda e socialista

Adriano Diogo

O Ato cumpriu seu objetivo. Desde 2005 estamos paralisados nessa questão. Ficamos aguardando, sem mobilização. Chegam notícias de que o Palácio do Planalto está preocupado com os Atos. Ora, só há um caminho, que é o que sabemos fazer: agir! lutar!

O PT nasceu e foi criado para terminar a ditadura. O PT na sua fundação foi o responsável pelo fim da ditadura. O PT deu uma grande contribuição à democracia no Brasil.

Em 1947, quando o PCB foi posto na ilegalidade, sabem qual foi a orientação do PCB? Não reagir, aceitar a cassação da legenda. E isso teve um custo enorme. Depois houve o processo tumultuado, Vargas voltou, se suicidou, e o Brasil entrou no golpe de 64.

E não adianta esse discurso do novo. Não existe o novo sem o passado. Por isso valorizo tanto a iniciativa dos companheiros de O Trabalho porque eles nunca renegaram a tradição socialista e a resistência do nosso partido. Porque embora tenham uma visão crítica da direção do PT, nesse momento em que o partido e a democracia estão ameaçados, começaram a organização desse movimento, e acho que até influenciou aquele ato ontem de Osasco.

Não adianta se disfarçar e dizer que nunca conheceu o Zé Dirceu, nunca conheceu o Genoíno. Que embora fizesse parte do PT, era de uma corrente que não concordava. E não adianta quem está no governo federal achar que nós somos os “feios sujos e malvados”.

Somos todos da mesma tradição dos operários, dos resistentes, dos revolucionários, dos comunistas e dos anarquistas. Somos filhos dessa tradição.

Não neguemos a nossa cor da nossa bandeira: viva o PT!

Gegê

O STF faz julgamento político contra o PT assim como faz contra os movimentos sociais. Genoíno e Dirceu são atacados pelas instituições judiciais da mesma forma que fui condenado há poucos anos atrás, e tive de me exilar por ser ativista do movimento de moradia e lutar pelas reivindicações do povo.

Eu me orgulho de hoje estar aqui defendendo o PT, defendendo meus companheiros que hoje estão condenados por uma democracia burguesa podre e desmoralizada.

Enquanto eles se organizam para dar golpe, e nas eleições nós percebemos isso, o povo deu a reação na cidade. Nosso candidato estava com 3%. Quando eles foram para o ataque, Fernando Haddad foi para 7, 14, 17, chegou a 28 %, foi para o segundo turno e ganhou. É o povo na rua, a militância na rua que está dando a reação contra esse sistema selvagem que vivemos.

Por isso quero propor que esse ato não seja o único, mas um entre centenas de atos que aconteçam no país, na defesa dos companheiros condenados, na defesa do PT e das organizações dos trabalhadores.

José Dirceu

As contradições e manipulações começaram desde 2005, no surgimento das denúncias de compra de votos pelo governo federal, por Roberto Jefferson do PTB. Fez as denúncias e não mostrou provas.

Esse processo já começou evidentemente político, o objetivo era outro. Mesmo se dentro da legislação atual foi cometida uma série de ilegalidades, e cada um tem que responder pela participação, como acontece com vários, filiados do PT ou não, que respondem na Justiça por caixa 2, por crime contra a ordem tributária, ninguém explica porque foram separados do processo dos 40. Aliás, o número 40 foi uma estratégia de marketing porque esse sempre foi um processo que teve as mãos da oposição, senadores e deputados que participaram de uma maneira que não é legal, junto às autoridades competentes para a denúncia.

Não é só a questão penal da ação 470, do nosso julgamento, do chamado mensalão. Tem a sua importância, mas não é essa a questão. A questão é como vamos enfrentar essa ofensiva que está havendo.

Ao sair do campo que eles são derrotados, eles criaram outro campo, da judicialização da política, da ofensiva através da pressão da mídia que foi feita efetivamente sobre o tribunal. Evidente que esse julgamento foi em uma situação totalmente excepcional, por isso a gente fala que ele é de exceção. E é um direito que nós temos.

Quero repetir, nós vamos cumprir a decisão, vamos recorrer, mas nós temos que fazer essa luta.

Hoje aqui, e ontem em Osasco, são dois exemplos do que nós temos que fazer [referência à plenária do mandato de João Paulo Cunha]

Jacy Afonso

Como militante do PT do DF e dirigente da CUT, acho importante essa iniciativa se propague no Brasil inteiro.

10 anos atrás tínhamos acabado de eleger o presidente. Aquilo surpreendeu a burguesia, e era preciso derrotar no mais curto prazo, no processo eleitoral, aquela vitória. Em 2005, começou a iniciativa, e fomos ao Palácio do Planalto fazer um ato de defesa do mandato do presidente Lula. A idéia era derrotar-nos na eleição. Não estão conseguindo. Mas estão impedindo o PT de crescer no parlamento. É importante que a gente lute por uma reforma política.

É também o momento para testar nossos aliados, se são aliados que aparecem para alianças governamentais, se são também da luta socialista, da luta de massa pela democracia.

Nesse mesmo STF rápido, eficiente do ponto de vista da mídia, há 16 anos existe uma ADI porque a primeira coisa que o governo FHC fez foi denunciar a Convenção 158 da OIT ratificada, da demissão imotivada, e há 16 anos não julga. O que levou à demissão arbitrária de milhões!

Nós temos que ocupar auditórios e praças. Precisamos avançar, mas para avançar é preciso ousadia e é isso que queremos dos militantes do PT.

“Atos em defesa do PT e dos direitos democráticos”

Julio Turra encerrou, apresentando a proposta da mesa de Convocatória de novos atos:

“Repudiamos o ‘julgamento de exceção’ que pretende preservar a regra, isto é, o sistema político-eleitoral marcado pela corrupção, pelo caixa dois e o tráfico de influencia,

Mais do que nunca, nós defendemos o PT que ‘nasce da vontade de independência política dos trabalhadores, já cansados de servir de massa de manobra para partidos e políticos comprometidos com a atual ordem econômica’ (Manifesto de Fundação).

Neste momento, nós respondemos ao chamado da Executiva do PT a defender o partido. E nos comprometemos com a mais ampla unidade com todos os setores dispostos a defendê-lo em Debates e Atos Públicos!”

Aprovada a Convocatória por aclamação, o ato acabou com a palavra de ordem “PT, na rua, a luta continua!”