Conferência Mundial Aberta reúne 400 representantes de 52 países na Argélia

Delegados de diferentes origens e trajetórias no movimento operário travam debate franco sobre os desafios vividos pelos trabalhadores e jovens em seu movimento contra a guerra e a exploração

A primeira coisa que salta à vista, quando se chega à Argélia, é a orgulhosa soberania inscrita em cada gesto de um povo que não esquece o preço que teve de pagar para arrancar a sua liberdade e independência das mãos do colonialismo francês no início dos anos 60.

Sentimento que foi expresso de forma intensa por Louisa Hanoune, porta-voz do Partido dos Trabalhadores da Argélia, co-organizador da conferência com a central sindical argelina UGTA e o Acordo Internacional dos Trabalhadores e Povos (AcIT). Em seu discurso de encerramento da conferência, ela disse: "Como argelina, e em nome de todos os delegados argelinos, em nome da UGTA, do Partido dos Trabalhadores, exprimo meu orgulho pela organização e a realização dessa Conferência Mundial Aberta na Argélia, terra de 1,2 milhão de mártires na luta pela independência, 56 anos depois do início da revolução".

Outra impressão deixada nos delegados que vieram de outros países – vários deles assinalaram isso em suas intervenções em plenário – foi o caloroso acolhimento e a fraternal hospitalidade que lhes reservaram os militantes do PT argelino durante os cinco dias em que as numerosas delegações estiveram no país.

Havia representantes de 52 países, cerca de 400 militantes do movimento operário, dirigentes políticos e sindicais, dos quais 97 fizeram uso da palavra, após escutarem os três informes introdutórios. Ao final, um sucesso inegável.

Unir lutas que são comuns

Na abertura dos trabalhos, Louisa Hanoune citou a frase de um dirigente do FMI, Michel Camdessus, em 1991, na Organização Internacional do Trabalho (OIT) – "Não há mais Norte nem Sul, todos devem aplicar o programa de ajuste estrutural" – para lembrar o quanto são unificadas as lutas dos povos, no mundo inteiro, contra a guerra e a exploração. Acrescentando que: "A guerra contra as classes operárias se desenvolve também nos Estados Unidos e na Europa". Lembrou ainda que "Sankara, ex-presidente de Burkina Fasso, que apoiou a Conferência de Caracas pela Anulação da Dívida Externa, dizia, alguns dias antes de seu assassinato, em 27 de fevereiro de 1987, que as desgraças de um povo não poderiam jamais ser aproveitadas por outro povo".

Sidi Saïd, secretário-geral da UGTA, fez a amarga constatação de que, no mundo dominado pelos mercados financeiros, "o homem desapareceu dos objetivos da economia, é a doutrina ultra-liberal que domina, para que o mercado seja o único regulador da economia". Acrescentou que "o problema não é regular os mercados como se regula seu aquecimento central". "É preciso", afirmou, "regressar a um terreno político e jurídico que garanta a justiça social". O que, em sua opinião, passa pela "boa governança" e pelo "diálogo social".

Para Daniel Gluckstein, coordenador do AcIT, "em suas lutas, os obstáculos que os trabalhadores e os povos encontram não estão prioritariamente nos governos, enfraquecidos e em crise, mas nas organizações da própria classe operária". E colocou uma questão que seria debatida durante os três dias da conferência: "O ‘diálogo social’ é a mesma coisa que a negociação? Não! É colocar-se de acordo com as medidas de acompanhamento da crise. O ‘consenso’ é a democracia? Não! O consenso é a obrigação de que exploradores e explorados cheguem a conclusões idênticas. A democracia é, ao contrário, o reconhecimento de interesses antagônicos na sociedade".

Todos os que intervieram em seguida dirigiram as acusações mais implacáveis contra um sistema social que leva atualmente o mundo e a humanidade inteira para a guerra, a destruição, o caos. Eles mostraram, ao mesmo tempo, que em todos os lugares, em condições certamente difíceis, os trabalhadores e os povos resistem com vigor à decadência à qual esse sistema pretende levá-los.

Guerra contra os povos

Como disseram os dois delegados do Afeganistão, "a guerra trágica desenvolvida contra o povo afegão é hoje a guerra do governo Obama, tão criminoso quanto o governo Bush". Uma guerra pretensamente pela "democracia", durante a qual "a produção de ópio subiu 30%; a violência contra as mulheres e as crianças também aumentou consideravelmente; milhares de civis foram mortos pelos ataques aéreos". O orador mostrou até onde vai o cinismo desses criminosos, ao relatar as palavras ditas dois dias antes por um representante da OTAN (aliança militar comandada pelos EUA): "O Afeganistão é um país onde é bom viver… bem melhor do que em Nova York".

Se há um povo que enfrenta essa política atroz de guerra contra a humanidade é o palestino, que, nas palavras de Salah Salah, membro do Conselho Nacional Palestino, "vive há muito tempo a exploração e a opressão de uma nação inteira, que conta com pelo menos 7 milhões de refugiados".

Os delegados mostraram ao mesmo tempo a resistência que a classe operária, o campesinato e a juventude opõem a essa política de destruição de seus direitos. Um delegado argelino, por exemplo, sindicalista da empresa estatal de petróleo, explicou como, "depois de uma longa batalha, os trabalhadores e o povo argelino conseguiram retomar para o controle do Estado os hidrocarbonetos em 51%, o que constitui um avanço, ainda que nós continuemos a exigir o controle de 100%".