Ataques à independência das organizações operárias

Movimento sindical enfrenta as armadilhas do “diálogo social” e da “governança mundial”

Em sua intervenção, o secretário-geral da UGTA, Sidi Saíd, iniciou um debate (leia na página ao lado) sobre o que fazer diante de uma política que, nas suas palavras, "faz temer o sindicalismo". E explicou: "Uma situação na qual se vê formar, acima de nossas cabeças, uma aliança não escrita, mas que pesa sobre nossas organizações, que opera um alinhamento à globalização".

Gene Bruskin, delegado estadunidense, militante da central sindical AFL-CIO, convidou todos a "desconfiar de palavras como ‘consenso’, ‘diálogo social’ e ‘ajuste’" e a "verificar sempre o que elas representam". Palavras que, na maioria das vezes, são "mentiras, armadilhas para as organizações sindicais".

Para Marc Blondel, veterano dirigente sindical francês convidado por Sidi Saíd à conferência, é evi-dente que essas palavras nada têm a ver com o sindicalismo operário independente. Constituem, na realidade, uma armadilha mortal para ele: "A ‘coesão social’ entre o operário e o patrão é impossível, é um engodo, é o sindicato a serviço dos patrões". E acrescentou: "O único ‘trabalho decente’ que eu conheço é o que aplica as normas da Organização Internacional do Trabalho (OIT), todas as normas da OIT". Quanto à "governança mundial", afirmou: "Temo que não seja nada mais, nada menos, que a autoridade do FMI". Não se pode, disse ele, "controlar o papel destruidor do FMI".

Júlio Turra, da CUT do Brasil, depois de comentar a presença dos diretores do FMI e da OMC no congresso de Vancouver da Confederação Sindical Internacional (junho deste ano), apresentados como "amigos dos trabalhadores", perguntou em sua intervenção: "É possível uma reforma do FMI? Organização criada para impor os planos de reestruturação, privatizações, cortes nos gastos públicos, ataques em regra contra os salários, os serviços públicos, os direitos dos trabalhadores, as aposentadorias? É claro que não, por isso penso que uma questão importante desta conferência é reafirmar o lugar da independência das organizações sindicais como instrumento de luta dos trabalhadores".

Princípios do sindicalismo

Patrick Hébert, da CGT-FO da França, constatou que "desacordos e Nunes se exprimem neste debate", perfeitamente legítimos diante da situação complexa na qual se encontra o movimento operário. Lembrando as bases e os princípios constitutivos do sindicalismo, explicou que décadas de combate de classe comprovaram que "no capitalismo, sob um regime de expio- ração do homem pelo homem, tudo foi conquistado pela relação de forças".

Para Norbert Benissan, dirigente da União Sindical Independente do Togo (UNSIT), "o diálogo social é o inimigo da independência de classe, é preciso reatar com os fundamentos do sindicalismo".

Charlie Lendo, vice-presidente da central sindical União Geral dos Trabalhadores de Guadalupe, resumiu essa questão, que se colocou com força durante a greve geral de 44 dias do ano passado em seu país: "O capitalismo e o colonialismo não se humanizam, combate-se".


Participantes definem coordenação internacional

No encerramento, foi lembrada a 1ª CMA, em Barcelona (1991), que lançou as bases para a discussão desenvolvida em Argel.

Coube a Louisa Hanoune, a quem Sidi Saïd havia dado o mandato para falar em nome de toda a delegação argelina, e a Daniel Gluckstein, em nome do Acordo Internacional dos Trabalhadores e dos Povos (AciT), concluir a conferência.

Para Gluckstein, "há cerca de 20 anos, em Barcelona (na Conferência Mundial Aberta), foram lançadas as bases, que se ampliaram consideravelmente nesta Conferência Mundial Aberta. Ocorreram debates de uma grande riqueza, de uma grande franqueza. A questão que está colocada para todos nós é: em que condições a classe operária pode se defender, senão ao se reapropriar de suas organi-zações?". Fazendo referência explícita à Primeira Internacional, a Associação Internacional dos Trabalhadores, ele concluiu: "Não há outra saída a não ser a busca combinada da unidade em torno daquilo que nos é comum e da diversidade no respeito às posições de uns e de outros".

Louisa Hanoune assinalou mais uma vez "a importância desta conferência realizada em Argel, em terra africana, na sede da Mutual do Sindicato dos Trabalhadores dos Materiais de Construção, na diversidade do movimento operário internacional, das delegações vindas de países imperialistas e de países oprimidos". Ela lembrou que, "para nós, não há distinção entre países fortes e fracos, pequenos ou grandes, mas um combate comum contra um sistema capitalista que vive uma crise sem precedentes e que gera os ataques mais brutais contra todos os povos, precipitando o mundo na anarquia".

Ao aprovar uma declaração (leia na página 5), os delegados aceitaram a proposta de que os membros da tribuna da conferência se constituíssem em coordenação internacional do Acordo Internacional dos Trabalhadores e dos Povos (AcIT). Eles decidiram também que a atividade de impulsionar o AcIT será operada conjuntamente a partir de Paris e de Argel.


Entre as iniciativas, carta a Dilma sobre o Haiti

Outras importantes questões fizeram parte da conferência e marcaram seus debates. Entre elas, podem ser citadas: a situação e as lutas das mulheres trabalhadoras e da juventude; o combate para tirar o jornalista negro estadunidense Mumia Abu-Jamal do corredor da morte; o combate desenvolvido pelo Comitê Internacional contra a Repressão (CICR) pelo fim da repressão que atinge o sindicalista russo Urusov, aprisionado, e os sindicalistas da central sindical de Guadalupe, a UGTG, perseguidos pelo poder colonial francês.

Esses temas foram abordados em reuniões ocorridas paralelamente às sessões plenárias da conferência, e deram origem a iniciativas abertas à assinatura dos participantes, como o apelo dirigido a Dilma Rousseff, presidente eleita do Brasil, para que retire as tropas brasileiras que comandam a missão de intervenção no Haiti.


Países participantes

 

Afeganistão • Alemanha • Argélia • Azânia (África do Sul) • Bangladesh • Bélgica • Benin • Brasil • Burkina Fasso • Burundi • Camarões • Chade • China • Coreia • Eslováquia • Espanha • Estados Unidos • Filip
inas • França • Gabão • Grã- Bretanha • Guadalupe • Haiti • Hungria • índia • Iraque • Itália • Lesoto • Líbano • Mali • Marrocos • Martinica • Maurício • México • Moldávia • Nigéria • Palestina • Paquistão • Portugal • República Centro-Africana • República Tcheca • Reunião • Romênia • Rússia • Senegal • Sérvia • Suécia • Suíça • Togo • Tunísia • Turquia • Venezuela