Diálogo Petista 83

Bené: “O PT entrou no jogo dos outros partidos”

Foto01DP83Ebenezer Inocêncio, Bené, milita no movimento de moradia, é membro do Diretório Municipal de João Pessoa, na Paraíba, além de sindicalista da Guarda Municipal. Preocupado com os rumos do partido e compromissado com as bandeiras da fundação do PT, ele integrou o Diálogo Petista no Estado.

Bené é membro da chapa Movimento Popular em Ação, na disputa municipal do PED, e no plano nacional apoia a chapa nacional Constituinte por Terra Trabalho e Soberania”.

Depois de participar do lançamento da chapa em João Pessoa ele concedeu uma entrevista a Fernando Cunha, onde coloca suas preocupações com os rumos do partido.

 

Como iniciou sua militância no PT, quais eram suas expectativas?

Militante nos movimentos sociais, entrei no PT em 2002. Minha militância partidária inicialmente foi no PCdoB. Quando me filiei ao PT, tinha a perspectiva de aglutinar militantes em torno de uma militância mais politizada e questionadora. Mas percebo que não é nada fácil conseguir esse intento, pois o PT foi se transformando em uma máquina eleitoral, e de forma muito pragmática esquecendo valores que lhe deram origem. Agora é o vale tudo, o toma lá da cá.

Como vê a situação do partido hoje?

Complicada. O PT entrou no jogo dos outros partidos. Alguns podem alegar que o “jogo é para ser jogado”. Sim, é. Mas, existem regras. E o PT igual aos partidos quebrou regras e perdeu muitos jogadores (militantes, personalidades, simpatizantes), embora ainda seja o partido que possui mais credibilidade junto ao povo, segundo pesquisas. O PT entrou na lógica de que os fins devem ser alcançados por todos os meios. E sabemos que a coisa não é por ai.

O PT também acertou. Nos governos, diminuiu a pobreza extrema, aumentou a renda dos trabalhadores e avançou em programas sociais. Porém, apesar desses avanços, a sociedade quer mais e o PT deve avançar mais. O PT necessita de uma chacoalhada, uma renovada, resgatar valores, voltar a ser um partido vibrante e presente nas lutas do povo, colocar para funcionar suas instâncias setoriais e dialogar com a juventude.

Após dez anos de governo do PT, o que acha que está por ser feito?

O PT precisa aprofundar sobre a questão da educação, ampliar os programas sociais e a mobilidade urbana. O aumento do consumo é importante? Sim. Mas, não foi suficiente. O povo quer mais avanços e o PT tem que seguir esse caminho.

Que lugar você vê atualmente para o Diálogo Petista?

O Diálogo Petista é um espaço importante, sobretudo, em um momento que o PT necessita de dialogar e aprofundar o debate interno, e não só em época de eleição. O resgate de valores, a presença nas lutas sociais e o diálogo com a juventude requer um debate mais aprofundado internamente.

Como você vê o processo do PED?

No meu ponto de vista, o PED é um processo que não se encontra ligado com a real força do PT em alguns lugares.

Em João Pessoa, por exemplo, temos 9 mil filiados e quando se chama uma reunião, um encontro ou uma plenária, no máximo comparece 500 filiados. Acho que existe uma diferença de filiado para militante.

A intenção do PED na época que ele foi estabelecido foi o de aprofundar a democracia interna, mas acabou se transformando em uma eleição parecida com as eleições tradicionais. Que todos sabemos são cheias de vícios. Temos que rever o processo do PED. Poderíamos fazer encontros municipal, estadual e nacional. Com delegados eleitos em cada encontro. Do municipal, para o estadual e do estadual para o nacional.


Um espaço de discussão e ação

O Diálogo Petista (DP) que já realizou cinco encontros nacionais sempre se apresentou, desde seu primeiro encontro em 2008, como uma articulação entre petistas de diferentes origens para discutir e agir no marco das bandeiras que estiveram na base da fundação do PT, em defesa da independência dos trabalhadores, suas reivindicações e a soberania nacional.

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Em quase cinco anos, desenvolveu várias campanhas, como pela revogação da Lei das Organizações Sociais que privatizam os serviços públicos, ou a campanha pela retirada das tropas brasileiras que comandam a ocupação do Haiti em nome da ONU, mas por decisão dos EUA.

Nesse período, muitos militantes encontraram no Diálogo Petista uma saída para “agir como o PT agia”, como foi definido no seu 5º Encontro Nacional, em novembro de 2012. Este encontro começou com um ato “Em defesa do PT e dos Direitos Democráticos”, contra a Ação Penal 470. Tudo a ver! Porque a ofensiva através do Supremo Tribunal Federal (STF) contra o PT, condenando sem provas seus dirigentes, é uma ofensiva contra as organizações dos trabalhadores.

Na entrevista acima, por exemplo, o companheiro Bené, da Paraíba, fala que o PT se confunde com outros partidos. De fato, a adaptação do PT às atuais instituições, estruturada na “política de alianças”, é que generalizou o “caixa dois” que todos os partidos praticam, mas que no caso do PT abriu a brecha para o STF entrar e condenar apenas o PT num julgamento de exceção.

Essa adaptação veio acompanhada de mudanças internas no próprio PT, como o PED. E aqui, vale uma reflexão. Introduzido no PT em 2001, o PED representou um ataque à democracia partidária, pois, sob o discurso de ampliação da participação dos filiados, foram introduzidas no PT regras que alijaram os militantes, e trouxeram ainda mais para dentro do PT a força do poder econômico, como “uma eleição parecida com as eleições tradicionais”.

A continuidade do Diálogo

A explosão das ruas em junho recolocou na ordem do dia as mudanças necessárias no país, que o próprio PT levantara no início dos anos de 1980. Não tê-las realizado depois de 10 anos no governo, é uma expressão concreta do fato de que o PT “entrou no jogo dos outros partidos”.

Refletir sobre isso e discutir como agir, essa é a proposta do Diálogo Petista.

Nesse processo do atual PED, o DP, que não se pretende uma nova tendência no partido, tem militantes membros de
várias chapas, mesmo se majoritariamente seus integrantes estejam identificados com as chapas “Constituinte por Terra Trabalho e Soberania” (CTTS), as quais se propõem a reerguer as bandeiras do PT. Chapas que, por outro lado, também agrupam e têm o apoio de militantes que não compunham o Diálogo Petista.

Assim, na Coordenação Nacional do Diálogo Petista já se discute a continuidade do trabalho depois do PED. Uma proposta é promover um encontro dos militantes do DP com as lideranças das chapas CTTS, se possível ainda antes do Congresso do PT de dezembro, de modo a coordenar os esforços ali e depois.

Afinal, sem dúvida, o prosseguimento da luta em defesa das bandeiras originais do PT continuará na ordem do dia!