Coletes amarelos, classe operária e democracia

[A partir da versão portuguesa, artigo publicado em Informations Ouvrières, nº 572, em 26.09.2019, na França]

“Manifestantes atacaram um hospital”. Todos se recordam da solene falsificação do ministro do Interior, Castaner, na tarde do 1º de Maio de 2019. Teve por comparsas nesta provocação de Estado, o sr. Hirsch, Diretor da Assistência Pública, encarregado da asfixia dos hospitais e, evidentemente, a mídia domesticada, como a BFM-TV, propriedade do grupo financeiro Altice.

Por Michel Sérac

A maquinação seria desmontada, em 24 horas, pelos funcionários do Hospital da Salpetriere, seus sindicatos e os manifestantes agredidos. Mas se nesse dia o cortejo sindical foi atacado, se as forças policiais cercaram, lançaram gases e aterrorizam manifestantes pacíficos, se o Elisée (sede do governo, NdT) multiplicou provocações, é porque um perigo importante ameaçava o presidente dos ricos. Na vaga de assalariados que se manifestavam misturavam-se estreitamente os coletes amarelos da revolta política e os coletes vermelhos dos sindicalistas.

Esta junção na luta é a prova de que uma outra tentativa fracassou miseravelmente, a de 6 de dezembro de 2018. Nesse dia, a CFDT (Central Francesa Democrática do Trabalho) – que, em 2016, apoiou a Lei do Trabalho do presidente Hollande e seu, então ministro, Macron, contra as Convenções Coletivas – ela procurou continuar a sua tarefa isolando os Coletes Amarelos. Assim, convocou para a sua sede uma reunião intersindical. O comunicado que dela saiu, não diz uma palavra sobre a repressão selvagem. Ao contrário, felicita o governo «por ter aberto a porta ao diálogo» e «denuncia toda e qualquer forma de violência na expressão das reivindicações»! Esta criminalização dos trabalhadores revoltados não espanta ninguém, vinda do pseudo-sindicato CFDT; mas, a sua adoção pela reunião intersindical espanta e enche de indignação todos os verdadeiros sindicalistas. Eles encaram-na como uma contaminação desonrosa. Ela não impedirá em numerosos departamentos (estados da França – NdT), contatos fraternos e ações comuns entre Coletes Amarelos e organizações sindicais, simbolizados por comunicados juntando a sigla CA às siglas sindicais.

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«O “todos juntos” que torna tudo possível»
As 2034 concentrações de protesto do dia 18 de novembro de 2018, em todo o território nacional (pico de atos de CAs – NdT), numa espontaneidade organizada, levantam os trabalhadores mais empobrecidos e mais oprimidos que querem «viver e não sobreviver do seu trabalho».

É, pois, absolutamente natural que a massa dos Coletes Amarelos se aproxime dos seus semelhantes nas classes exploradas. E, desde então, nos locais de trabalho, os empregados e os sindicalizados perguntam ao seu delegado sindical:“Espero que você seja favorável aos Coletes Amarelos!?” O estandarte erguido da revolta geral contra a miséria, a injustiça e a opressão – que rompe radicalmente com o ritual das “jornadas de luta” sem futuro, as quais ninguém mais teme, suscita um interesse apaixonado.

Em referência direta à mobilização contra as leis do governo do PS, a Assembleia das Assembleias de Coletes Amarelos na localidade de Saint Nazaire (Nantes, abril de 2019), chama a «construir coletivamente este famoso ‘todos e todas juntos’ que gritamos, e que torna tudo possível».

Como fazer triunfar a vontade majoritária, as reivindicações vitais, através da «greve massiva», «criando comissões nos locais de trabalho para que esta greve seja construída a partir da base pelos próprios grevistas» (Assembleia das Assembleias na localidade de Commercy, Janeiro de 2019)? Como “superar os obstáculos à unidade e bloquear o país, a fim de fazer o governo ceder acabar com Macron e este Sistema» (texto de convergência votado na Assembleia das Assembleias da localidade de Monceau-les-Mines, Junho de 2019)?

São estes os problemas vitais da emancipação dos trabalhadores, cuja discussão atravessa todo o movimento operário. Eles geram grandes debates nos grupos de Coletes Amarelos de todas as regiões, e entre os sindicalistas “classistas”. Eles também estão no centro do intercâmbio entre os membros dos Comites Locais de Resistência e Reconquista (agrupamento de miltantes sociais e políticos apoiado pelo POI – NdT). O nosso jornal reporta, semanalnente.

Este regime tem governado exclusivamente para espoliar e escravizar a massa do povo, a maioria, em benefício de poucos da aristocracia financeira. Nove milhões de pobres é o resultado cruel desta política.

Reivindicações e democracia, direitos sociais e refundação da República, estão intimamente ligados. A solução da “imensa crise de soberania popular”(1) repousa nas classes trabalhadoras. Delas depende a salvação dos serviços públicos e da Saúde pública, sem os quais milhões de famílias modestas seriam privadas do acesso à civilização. Isto para satisfazer a ganância dos especuladores multimilionários, que o vil e velado governo do PS isentou de impostos.

O método comprovado das provocações do Estado
Sob um regime tão odiado que 440 deputados, em 2017, foram eleitos por menos de 25% dos cidadãos do seu distrito eleitoral (2), Macron, Castanere os outros não têm outro recurso, frente à imensa simpatia popular pelos Cas, senão utilizar o método comprovado de provocação.

Ele consiste, com a ajuda dos órgãos da mídia nas mãos de multimilionários, em fazer desaparecer as reivindicações legítimas sob a violência. A iniciativa da violência será, é claro, atribuída aos manifestantes, que assim se tornam puros delinquentes, atacando pessoas e bens, pilhando modestos comerciantes etc. O que vimos por muito tempo se fazer para distorcer as manifestações pacíficas de estudantes secundáristas, ou contra a Lei do Trabalho de Hollande-Macron, torna-se agora a doutrina totalitária do “sistema” de Quinta República. Castaner fala em “Coletes Amarelos radicalizados”,”que já nem sequer têm reivindicações”; e um repórter da LCI (canal de TV La Chaine Info, NdT) os chama de “enlouquecidos”; as reportagens começam pelo número de detenções preventivas (das quais conhecemos a arbitrariedade), o incêndio do dia, a “agressão” contra as forças da ordem etc. Como o monarca Macron satisfez, segundo eles, as reivindicações dos plebeus, os papagaios mediáticos e políticos do Elisée recebem a tarefa de criminalizar os “irredutíveis”.

A armadilha desta desnaturação do seu movimento, não escapa à “inteligência coletiva” dos comites e assembleias de Coletes Amarelos. Portadores de uma verdadeira democracia, a serviço da maioria do povo, porque emanam dele, e vítimas dos abusos perpetrados pelo poder, eles questionam este poder político que dá ordens de repressão, de mutilação e de prisão. As provocações violentas e o caos visam isolar as resistências, para facilitar a infame comédia das “concertações sociais”… com base no programa de Macron, o “diálogo”entre cúmplices institucionais… para salvar o sistema.

“Nós estaremos lá”
A última “ADA” (Assembleia das Assembleias) dos Coletes Amarelos, na localidade de Montceau-les-Mines, chamou, no “texto de convergência”, unânime, à “preparaçãodo novo período que se abre: cada vez que as reivindicações forem comuns, indo no sentido de acabar com a pobreza, a precariedade e a fratura social, ou para ganhar novas conquistas, estaremos lá. As formas serão variáveis. Em particular, chamamos os Coletes Amarelos imediatamente a apoiar a greve dos funcionarios das Urgências (Emergencias, ramo do sistema hospitalar nacional – NdT), através de moções, delegações, reuniões ou manifestações conjuntas. Faremos o mesmo com todos os setores em luta , de acordo com os acontecimentos atuais: professores, privatização de barragens, bancos, seguro-desemprego, nas empresas (…). Para travar a reforma da aposentadoria, estaremos na rua com os trabalhadores e suas organizações, com as populações, com o objetivo de fazer recuar o governo e obter a retirada do seu Projeto.

“Parar o Estado policial”
Que o grande chute dos CAs na ordem social e política liberou, em todo o país, a iniciativa dos trabalhadores e do povo, já se via no caráter das lutas sociais, como nas Urgências, nos professores, no ministério das Finanças. Mas uma outra bandeira de resistência foi levantada pelo Apelo das Mães e Mulheres da localidade de Mantes-la-Jolie. Elas recusam a impunidade do poder macronista, após a humilhação dos 151 secundaristas ajoelhados (sob a mira de fuzis, foto que rodou o mundo – NdT) em 6 de dezembro de 2018, à moda das ditaduras militares. Elas denunciam sucessivos governos de “esquerda ou de direita”, “em guerra” contra o povo, contra a juventude, contra “as classes subalternas”, contra “as atuais colonias francesas, tal como estão em guerra com as suas antigas colonias”; em guerra contra os migrantes, “o movimento social em geral, os Coletes Amarelos em particular, e qualquer um que se atreva a resistir aos que nos governam”.

Este magnífico panfleto vem no momento certo, para desmontar a nova perfídia presidencial – competir com o clã Le Pen para agudizar os ódios comunitaristas e racistas: “A sua guerra é anti-social, racista e imperialista. Nós, Mães das cidades, mães das crianças ajoelhados em Mantes-la-Jolie, não aceitamos mais este estado de injustiça permanente. Nós desejamos apenas uma coisa: Paz (…).Dizemos não ao Estado policial onipresente nos nossos bairros, em vez do Estado social.”

Um Estado social, restaurando todos os direitos democráticos, que se substitua ao arbitrário, injusto e violento Estado da minoria das classes dominantes; um Estado baseado na soberania do povo, agora reduzido ao estatuto de “classes subalternas”: assim se desenha, fora do “sistema” e de todos os partidos que o servem, e que vivem dele, a vontade e os objetivos do povo trabalhador.

Um povo que realizou, na sua história moderna, cinco revoluções.

(1) Coletiva de imprensa dos CA (15.12.2018), frente a Sala do Jeu de Paume, marco da Revolução Francesa de 1789.
(2) Cálculo do jornal Le Monde, em 2017; na França o voto é distrital (NdT).

© foto: Kamil Zihnioglu/AP Photo

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