Diálogo Petista 56

COMEÇAM OS DEBATES COM

OLÍVIO DUTRA

 

Promovidos pelo “Diálogo”, começaram os Debates com o líder bancário e fundador do PT, ex-governador e ex-ministro, Olívio Dutra.

Em Salvador, dia 23 de abril, 120 petistas compareceram ao Auditório da Faculdade Visconde de Cairu. Em Recife, dia 24, uma centena veio ao auditório do Sindicato dos Bancários. Numa discussão animada entre companheiros sobre sua contribuição (O PT não pode se acomodar), foram discutidos diversos problemas.

Iniciativas foram apresentadas, como a Jornada Continental pela Retirada das Tropas do Haiti de 1º de junho.

Os Debates prosseguem dia 14, em São Paulo, no Sindicato dos Engenheiros (19h), e em Curitiba, dia 15, no Espaço dos Bancários (18:30h). Abaixo, uma primeira reportagem deste ciclo.

“OPTAMOS POR ESSE CAMINHO,

MAS NÃO PARA SERMOS

MODIFICADOS POR ELE”

Olívio: Não trago soluções, mas inquietações, este debate é de suma importância, pois se trata do futuro do partido e, por conseguinte, do país.

O PT é fundado no final da década de 1970 em meio a lutas importantes, sobretudo contra a ditadura. Nasce de baixo para cima, da necessidade de organização dos trabalhadores para os trabalhadores. Representa a herança da luta histórica da classe trabalhadora.

Um dos desafios do PT é conquistar espaço por dentro da institucionalidade, o Estado, sem deixar-se cooptar, indo além dos interesses pessoais, pautado numa proposta transformadora e não conformadora. É preciso discutir a política do Estado que continua funcionando muito bem para poucos, e muito mal para a maioria.

O PT não pode depender da institucionalidade. Optamos por trilhar este caminho, mas não para sermos modificados pela institucionalidade. Estamos no terceiro mandato do PT e se fez relativamente pouco, mesmo com grande acumulo de experiências, e temos que refletir sobre as razões. O ato de governar não pode esgotar o partido, ou seja, as bandeiras estratégicas do partido continuam para além de governos, não podem ser rebaixadas.

É importante a sustentação do partido, a contribuição financeira de cada associado. Ela também é uma forma de conscientização. Hoje, o PT, materialmente, está dependendo dos cargos comissionados. São alguns desafios para quem acredita no PT como instrumento de transformação.

1OlivioSalvador

Mesa: Caio Bandeira, secretário da JPT-Salvador, Antônio Edgard, Coord. Setorial de Educação,  Paulo Mota, Executiva Municipal PT,  Júlio Rocha, vice-presidente PT-BA,  Vanja, Militância Socialista, Markus Sokol, Coord. DP, Lourival Lopes, O Trabalho

1ª rodada

Júlio Rocha (Executiva Estadual): A partir da constatação das inflexões conservadoras no governo baiano, observamos greves e reivindicações da classe trabalhadora, além da dificuldade de diálogo dentro do partido. Relate a experiência como governador do Rio Grande do Sul, os problemas enfrentados.

Zé Luís (CEFET): Vivemos um momento em que muitos se envergonham de serem petistas. Como era a prestação de contas do seu governo? Hoje, nem na CPI dos processos de privatização avança. Estamos iguais aos outros partidos, precisando de “caixa 2” para financiar nossas campanhas.

Caio (JPT): A juventude que está na direção não está preocupada com a transformação da realidade. Segmentos aglutinam-se na institucionalidade e “perdem” o rumo. Qual é mesmo o nosso papel? Ampliar as pautas e lutar pela transformação da realidade social. É preciso cuidar da formação, não podemos cair no vício da juventude que recua nos mandatos.

“A MÁQUINA GOVERNAMENTAL

É TRITURADORA!”

Olívio: O partido está acima do governo e do Estado, pois possui um projeto estratégico de sociedade e Estado; seu compromisso vai além do governo. O governo vincula-se à institucionalidade que é limitada (municipal, estadual, federal; poderes legislativo, executivo e judiciário).

Há correlação de força dentro desses poderes. As lutas podem tencionar o aparato governamental. No governo, vamos para o centro destas contradições e temos que vivenciá-las: a máquina governamental é trituradora! A estrutura do Estado amarra, e isto precisa ser questionado. É preciso dialogar com os movimentos sociais, rever a forma com que se age, prestar contas nos governos petistas. A governabilidade não pode justificar submeter-nos a tudo, estar todo o tempo na mesa do governo.

2º rodada

Antonia (Comando de greve APLB): Os professores estão em greve pela aplicação do Piso, porque os projetos do governador Wagner burlam a lei do piso, e não cumpre acordos, dividindo a categoria. Ataca o movimento tão bem, que só um ex-sindicalista seria capaz de fazer!

Sokol (DP): Não mexemos no Estado em 10 anos de governo, mas o PT nasceu para isso. Não é fácil criar ferramentas, para abandonar, mas é necessário dizer: tem coisas certas e coisas que são erradas. O governo petista deveria dar um jeito de atender os grevistas. O que não é possível é sequer dialogar com os professores em greve. Outro exemplo: o governo argentino, com todas as limitações, decidiu, soberano, nacionaliza
r 51% da maior empresa de petróleo. Enquanto, no Brasil, no governo do PT, as privatizações não foram revertidas – está aí a Chevron e os leilões do petróleo, enquanto a FUP tem o projeto de Reestatização – e ainda tem a concessão de aeroportos.

Glauber: nesta questão da Ford, a multinacional que veio do Sul aqui para a Bahia, o que estamos ganhando?

“NÃO SABEM QUE

SE DIMINUIR O IPI,

CAI A ARRECADAÇÃO

E O REPASSE?”

Olívio: Não foi possível mexer no Estado em 10 anos de governo, e uma reflexão é debater as causas. Os Estados ficam pedindo às multinacionais, eu não fiz isso. A Ford não contribuiu em nada com o desenvolvimento do Sul, e, quando veio pra Bahia, pediu mais e levou. Mas foi decisão nossa não fazer isso, cair nessa lógica perversa, pois, em 1º lugar, está a população e não a multinacional, senão o partido se apequena, se dobra e perde a espinha.

Ainda tem sindicalista petista, entre os fundadores da CUT, pedindo ao governo que diminua o IPI dos carros, senão as montadoras vão demitir… Será que não sabem que se diminuir o IPI, cai a arrecadação e o repasse do Fundo de Participação dos Municípios? O povo vai sofrer sem serviços públicos.

Hoje, a crise força as empresas, mas os sindicalistas do PT não podem ser forçados. As contradições na sociedade ficam mais acentuadas, os ricos cada vez mais ricos, e há muitos pobres. O governo do PT está remando contra a maré, pois, afinal, o aumento do PIB não significa distribuição de renda.

O compromisso do partido deve ser se colocar nas direções das lutas populares e superar a dificuldade de diálogo entre o governo e os movimentos sociais. A Argentina é um exemplo que contraria os interesses dos poderosos. “Governar é contrariar interesses”, no caso do PT, contrariar os interesses da classe burguesa.

 

OLÍVIO NO RECIFE

2OlivioPernambuco

• Sim, fizemos política social compensatória, tinha gente morrendo de fome, era urgente, era o mínimo a fazer, mas é o mínimo mesmo, e virou o máximo!

• No Rio de Janeiro, por exemplo, em determinada época, intervimos no Diretório Regional, e desde então não tivemos mais candidatos. Agora são erros coletivos, de instancia e não pessoas, adotados por maiorias. Daí precisa tirar lições.

• A questão da reforma agrária não entrou na Constituinte (1987), nem a do imposto sindical. E tem de mudar, mas será que vai ser lá, ou nos movimentos, que acontecerão essas mudanças de fundo? Por isso, acho necessário uma assembleia constituinte, exclusiva, para fazer a reforma política, tão necessária para o povo.

• A Dilma, que está tão bem, mas o povo na pesquisa pede o Lula de volta. O que estão querendo dizer é que querem mais, querem o que ainda está por fazer, uma verdadeira transformação, e não subserviência ou acomodação.