Chile: vitória contundente do “apruebo” no plebiscito

Uma contundente vitória com 78,27% de votos “apruebo” (sim à uma nova Constituição) no plebiscito deste domingo. Isso mostra a vontade soberana do povo chileno de enterrar a Constituição herdada de Pinochet e preservada nos 30 anos dos governos de “concertación”. Publicamos texto escrito no calor das comemorações populares na noite deste domingo (25) em Santiago, enviado por Javier Marquez G., dirigente sindical bancário e um dos membros da coordenação nacional “No + AFP”, movimento contra os fundos de pensão (previdência privada, instaurada por Pinochet) e pela recuperação da previdência pública e solidária. Com introdução de Misa Boito, membro do comitê nacional do DAP.

Resultado mostra que o povo reafirmou os motivos do levante (“estalido”) iniciado em de 18/10/19

A contundente vitória do “apruebo” (sim à uma nova Constituição) mostra a vontade soberana do povo chileno de enterrar a Constituição herdada de Pinochet e preservada nos 30 anos dos governos de “concertación” (governos de conciliação), um acordo entre a Democracia Cristã e o Partido Socialista chileno, acompanhado pelo Partido Comunista. A “concertación” foi o dique de contenção da vontade majoritária, expressa em 1988, quando num plebiscito convocado pelo ditador Pinochet sobre sua continuidade no governo, respondeu com um sonoro Não! O povo disse basta das políticas da ditadura, mas os governos da “concertación” deram continuidade à sua política.

Agora o povo chileno se manifestou, de novo, pelo fim de todos os resquícios da política da ditadura, o que deve ser construído por uma Assembleia Constituinte exclusiva (100% dos delegados eleitos para esse fim e não mista (com 50% dos atuais deputados), a segunda pergunta colocada no plebiscito.

Este plebiscito, imposto pelas fortes mobilizações, fez parte do “Acordo de Paz”, assinado entre o governo e partidos da oposição, como forma de conter o movimento, depois de uma vigorosa greve geral em 12 de novembro de 2019 que parou o país de norte a sul. O bloco sindical que integra a Unidade Social (criada depois de 18/10/19) criticou o acordo de paz, mas se apoiou na brecha aberta pelo plebiscito para avançar a luta. O resultado de 25 de outubro mostra que o povo está decidido. Uma força capaz de superar as amarras impostas no acordo de paz à nova convenção constituinte, como a exigência de 2/3 para aprovar qualquer medida. Quando os chilenos ecoaram pelo país depois do 18 de outubro “não é por 30 pesos, mas por 30 anos” eles estavam determinados a recuperar seus direitos retirados desde a ditadura (aposentadoria, educação e saúde públicas, soberania…). E esta determinação foi cravada de novo no resultado de 25 de outubro.


O plebiscito é um degrau, não o último

Javier Marquez

O dia 25, há um ano do início do “estallido”, deixou claro que o povo não esqueceu os motivos que deram início ao levante, cuja intensidade foi abaixada durante a pandemia.

Em resumo, o levante não terminou, já que as mobilizações, ainda que diminuídas, não terminaram e as reivindicações estão presentes em toda a população.

Os meios de comunicação que repetem a voz oficial do governo de Piñera ressaltaram, exageraram e deram como verdadeiras muitas montagens.

Em 25 de outubro, na Praça da Dignidade (1), novamente o povo e as organizações sindicais e sociais mostraram sua postura irrenunciável de mudar o Chile, e que o plebiscito é um degrau, mas não o último, neste caminho.

O governo mudou sua atitude nas últimas semanas, ficou mais contemplativo, diminuiu a repressão e passou a destacar fatos de violência, atribuindo-as à esquerda e aos partidários do ‘apruebo’. Assim sua mensagem de terror e medo foi acompanhada por imagens que foram reiteradamente repetidas igualmente no discurso da direita e dos defensores do sistema.

Inscrever na Constituição as reivindicações

Desde muito cedo o povo dirigiu-se aos locais de votação, com calma e com alegria, um sentimento refletido nas redes sociais. Muita gente emocionada pelo momento que vive e sentindo-se parte de um fato histórico. É a primeira vez que se perguntou ao povo, aos trabalhadores, se querem mudar a Constituição, apesar das amarras e armadilhas que tentam os que não querem mudanças.

Muitos jovens que votaram pela primeira vez demonstraram sua alegria e esperança em mudanças importantes. Muitos que não acreditavam, se somaram, com desconfiança, mas deram um passo.

O “estallido”, apesar do oficialismo tentar mostra-lo como violento, serviu para nos unirmos mais e para desvelar que a classe trabalhadora pode fazer ouvir sua voz.

Habitualmente as eleições no Chile terminam as 18 horas, mas neste dia 25 as mesas fecharam às 20 horas e, ainda que a maioria tenha ido votar antes, até as 20 horas muitos vieram votar.

As pesquisas falavam em um resultado de 70% x 30% para o ‘apruebo’ e 60% x 40% a favor da Convenção Constitucional.

No início da apuração dos votos, rapidamente a tendência de ambas opções se demonstrou e seguem subindo, chagando a cerca de 80%.

O Presidente Piñera, em cadeia nacional, se dirigiu ao país reconhecendo sutilmente sua derrota, mas arrogando-se o acerto de ter convocado o plebiscito, ignorando que foi o povo mobilizado que forçou esta situação.

A maioria dos políticos de direita assumiram a derrota contundente. Em todas as regiões do Chile foram vitoriosas as opções ‘Apruebo’ e Convenção Constitucional, inclusive nas quais a direita historicamente marca presença.

Em Santiago, só em três comunas ganhou o ‘rechazo’ (não à nova Constituição, NdT), são comunas da classe mais acomodado do Chile, onde moram os que ostentam o poder.

A participação no plebiscito, 7.500.000 votantes, é a maior, em relação às últimas eleições. A esta hora que escrevo falta apurar 4% dos votos e o resultado é Apruebo com 78,27% e Convenção Constitucional com 79%

Em todo o país a comemoração transbordou todo prognóstico e a crise sanitária passou a um segundo plano.

Agora a tarefa que vem é tanto ou mais difícil que este plebiscito. É preciso eleger constituintes que logrem inscrever as reivindicações na nova Constituição e se a oposição não se ordenar por isto, a direita poderá manter seus privilégios.

Há uma série de requisitos para inscrever candidatos independentes (fora da lista dos partidos, NdT) e os partidos contam com regras menos duras, o que faz com que superar esta barreira seja um problema principal.

Na análises de diferentes setores políticos surge o tema de acercar-se e escutar mais os movimentos sociais. De sua parte, os movimentos sociais têm uma profunda desconfiança e o desejo de seguir evitando este cerco.”

Santiago, 25 de outubro, 23 horas

(1) Praça da Dignidade, antiga Praça Itália, ponto de encontro de onde saem as manifestações na capital chilena e que foi ocupada  e rebatizada durantes as mobilizações iniciadas em 18 de outubro

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