Conferência Mundial na Argélia é um êxito

Realizada entre os dias 27 e 29 de novembro, a Conferência Mundial Aberta contra a Guerra e a Exploração foi um grande êxito. Pela primeira vez uma atividade deste tipo foi organizada num país africano, a Argélia, e contou com a participação de mais de 400 delegados de 52 países. Nestas 4 páginas especiais trazemos a Declaração final adotada (abaixo), o relato de algumas intervenções, a repercussão na imprensa local e os resultados da reunião de jovens. A conferência foi realizada no Centro dos trabalhadores da construção civil, em Zeralda (a 45 km da capital, Argel).

Declaração da Conferência Mundial Aberta contra a Guerra e a Exploração

Argel, 27-28-29 de novembro de 2010

Nós, militantes operários, políticos e sindicais, delegados de 52 países reunidos na Conferência mundial em Argel, nos dias 27, 28 e 29 de Novembro de 2010 – depois de ter ouvido os informes precisos apresentados por 97 oradores sobre a situação dos seus países – chegamos a uma conclusão: só a união dos trabalhadores e povos do mundo pode impedir que a humanidade seja arrastada para um desastre como o que já sofrem os povos do Haiti, Afeganistão e de muitos outros países martirizados.

Trata-se de uma catástrofe que deriva da sobrevivência de um sistema econômico que tem como base a exploração capitalista e as políticas postas em prática para tentar salvá-lo, assumidas por go-vernos de todas as cores políticas que aceitam aplicar as diretivas do governo dos EUA.

A nossa Conferência tem como título: contra a guerra e a exploração.

Somos contra a guerra, que provoca sofrimentos intoleráveis aos povos e trabalhadores do mundo inteiro e impõe, em todos os países – seja nos que são vítimas de intervenções militares estrangeiras, seja nos que as organizam – a destruição de setores inteiros da indústria, o desemprego generalizado, medidas de desregulamentação, destruição do ensino e da cultura, a desertificação dos campos e as migrações sem fim. Opomo-nos às ingerências estrangeiras, às ameaças de intervenções militares (onde quer que sejam) e à presença de bases militares imperialistas que questionam a soberania das nações.

Somos contra a exploração

Rejeitamos os ditados feitos pelas “cúpulas” – do G20, do G8, do FMI, da UE, etc. – que dizem lutar contra as consequências da “crise”, fazendo pagar um preço cada vez maior e devastador aos traba-lhadores e à juventude, às suas conquistas, seus direitos e garantias.

Recusamos, também, a pretensão dessas mesmas instituições de associar as organizações sindicais ao acompanhamento de suas reuniões de cúpula e das decisões nelas tomadas, contra a indispensável solidariedade operária internacional.
Rejeitamos o ditado que impõe o pagamento de uma dívida que não é dos povos, utilizada como instrumento de pilhagem e desmantelamento da soberania das nações e de todas as conquistas dos trabalhadores no mundo inteiro.

Rejeitamos o ditado lançado às organizações operárias, das quais se exige – em nome do pretenso “interesse geral” – que aceitem as regras de uma “governança mundial” e de um pretenso “diálogo social”, cuja única função é subordinar e integrar as organizações dos trabalhadores aos planos dos governos e das instituições internacionais, colocando em questão a soberania nacional. Ao aceitar agir deste modo, organizações dos trabalhadores se subordinariam a esse ditado e seriam impedidas de desempenhar o seu papel de defesa dos interesses dos trabalhadores e dos povos. Afirmamos que a independência das organizações operárias é uma das condições da democracia, do progresso social e da soberania e independência dos povos.

Nós, delegados de 52 países, reunidos em Argel durante três dias de intercâmbio e discussão, cons-tatamos que, apesar dos terríveis sofrimentos impostos em todo o mundo, em toda a parte se levanta a resistência dos povos, da juventude e dos trabalhadores que procuram reapropriar-se de suas organizações para lutar, resistir e reconquistar os direitos perdidos.

Há vinte anos, em 4 de Janeiro de 1991, o Manifesto adotado pelo Acordo Internacional dos Trabalhadores e Povos (AcIT), em sua Conferência de fundação de Barcelona, afirmava a confiança dos participantes “na capacidade dos trabalhadores do mundo inteiro para se libertar das cadeias da exploração e da opressão, na sua capacidade para edificar um mundo em que a colaboração harmoniosa entre as nações e os trabalhadores se substituirá a este mundo de barbárie que aumenta cada vez mais”.

Vinte anos depois, nós, reunidos em Argel, reafirmamos esta confiança reforçada pelos acon-tecimentos que se produziram: apesar de todos os sofrimentos e de todas as destruições, a vontade de resistência e de luta dos trabalhadores e povos – que não aceitam desaparecer – continua sendo o elemento essencial que está na base do futuro da humanidade.

Vinte anos depois, reafirmamos: a paz e a fraternidade entre os trabalhadores e os povos só pode ser realizada pelos próprios trabalhadores e povos. Só pode ser realizada sobre a base da satisfação das suas necessidades fundamentais, as quais se chocam com as da classe dos exploradores, que traz no seu seio a guerra e a bancarrota.

O nosso dever é, mais do que nunca, atuar para organizar e contribuir no combate que vai ajudar os povos e as classes trabalhadoras a salvarem, através de seu próprio movimento e preservando a independência das suas organizações, a humanidade das guerras e das cadeias da exploração e da opressão.

Retomamos à nossa conta a palavra de ordem, lançada em 4 de Janeiro de 1991, em Barcelona: “Governos responsáveis pela guerra e pela miséria, temei a revolta dos povos. Abaixo a guerra. Abaixo a exploração”.

Sobre esta base, nós, delegados representantes de 52 países, pensamos ser indispensável desen-volver ainda mais o intercâmbio e o diálogo entre as delegações de todos os países, de modo a reforçar, em cada um dos nossos países e no plano internacional, o movimento iniciado para preservar a independência das organizações operárias, da qual depende a salvaguarda da civilização humana. Damos mandato à Coordenação internacional do Acordo Internacional dos Trabalhadores e Povos para organizar esse intercâmbio e esse diálogo.

Comitê de coordenação: Anton Vechkunin (Rússia); Patrick Hébert, dirigente sindical CGT-FO (França); Charly Lendo, dirigente sindical UGTG (Guadalupe); Julio Turra, dirigente sindical CUT (Brasil); Nancy Wohlforth, co-presidente de Pride at Work (Orgulho no Trabalho) e vice-presidente da California Federation of Labor (Federação do Trabalho da Califórnia) (EUA); Salah Salah (Conselho Nacional da Palestina) (Palestina); Tiyani Lybon Mabasa, Presidente do Socialist Party of Azania (Partido Socialista da Azânia) (África do Sul/Azânia); Jordi Salvador Duch, dirigente sindical (Espanha); Gotthard Krupp (SPD, Ver.di), (Alemanha); Rubina Jamil, Presidente da All Pakistan Trade Union Federation (Federação de Todos os Sindicatos do Paquistão); Nambiath Vasudevan, coordenador do Trade Union Solidarity Committee (coordenador do Comitê Sindical), Mumbai (Índia); Louisa Hanoune, secretária-geral do Partido dos Trabalhadores (Argélia); Daniel Gluckstein, secretário nacional do Partido Operário Independente (França); Alan Benjamin, OPEIU local 3, membro do San Francisco Labor Council (Conselho do Trabalho de San Francisco) (EUA).

Conferência Mundial Aberta reúne 400 representantes de 52 países na Argélia

Delegados de diferentes origens e trajetórias no movimento operário travam debate franco sobre os desafios vividos pelos trabalhadores e jovens em seu movimento contra a guerra e a exploração

A primeira coisa que salta à vista, quando se chega à Argélia, é a orgulhosa soberania inscrita em cada gesto de um povo que não esquece o preço que teve de pagar para arrancar a sua liberdade e independência das mãos do colonialismo francês no início dos anos 60.

Sentimento que foi expresso de forma intensa por Louisa Hanoune, porta-voz do Partido dos Trabalhadores da Argélia, co-organizador da conferência com a central sindical argelina UGTA e o Acordo Internacional dos Trabalhadores e Povos (AcIT). Em seu discurso de encerramento da conferência, ela disse: “Como argelina, e em nome de todos os delegados argelinos, em nome da UGTA, do Partido dos Trabalhadores, exprimo meu orgulho pela organização e a realização dessa Conferência Mundial Aberta na Argélia, terra de 1,2 milhão de mártires na luta pela independência, 56 anos depois do início da revolução”.

Outra impressão deixada nos delegados que vieram de outros países – vários deles assinalaram isso em suas intervenções em plenário – foi o caloroso acolhimento e a fraternal hospitalidade que lhes reservaram os militantes do PT argelino durante os cinco dias em que as numerosas delegações estiveram no país.

Havia representantes de 52 países, cerca de 400 militantes do movimento operário, dirigentes políticos e sindicais, dos quais 97 fizeram uso da palavra, após escutarem os três informes introdutórios. Ao final, um sucesso inegável.

Unir lutas que são comuns

Na abertura dos trabalhos, Louisa Hanoune citou a frase de um dirigente do FMI, Michel Camdessus, em 1991, na Organização Internacional do Trabalho (OIT) – “Não há mais Norte nem Sul, todos devem aplicar o programa de ajuste estrutural” – para lembrar o quanto são unificadas as lutas dos povos, no mundo inteiro, contra a guerra e a exploração. Acrescentando que: “A guerra contra as classes operárias se desenvolve também nos Estados Unidos e na Europa”. Lembrou ainda que “Sankara, ex-presidente de Burkina Fasso, que apoiou a Conferência de Caracas pela Anulação da Dívida Externa, dizia, alguns dias antes de seu assassinato, em 27 de fevereiro de 1987, que as desgraças de um povo não poderiam jamais ser aproveitadas por outro povo”.

Sidi Saïd, secretário-geral da UGTA, fez a amarga constatação de que, no mundo dominado pelos mercados financeiros, “o homem desapareceu dos objetivos da economia, é a doutrina ultra-liberal que domina, para que o mercado seja o único regulador da economia”. Acrescentou que “o problema não é regular os mercados como se regula seu aquecimento central”. “É preciso”, afirmou, “regressar a um terreno político e jurídico que garanta a justiça social”. O que, em sua opinião, passa pela “boa governança” e pelo “diálogo social”.

Para Daniel Gluckstein, coordenador do AcIT, “em suas lutas, os obstáculos que os trabalhadores e os povos encontram não estão prioritariamente nos governos, enfraquecidos e em crise, mas nas organizações da própria classe operária”. E colocou uma questão que seria debatida durante os três dias da conferência: “O ‘diálogo social’ é a mesma coisa que a negociação? Não! É colocar-se de acordo com as medidas de acompanhamento da crise. O ‘consenso’ é a democracia? Não! O consenso é a obrigação de que exploradores e explorados cheguem a conclusões idênticas. A democracia é, ao contrário, o reconhecimento de interesses antagônicos na sociedade”.

Todos os que intervieram em seguida dirigiram as acusações mais implacáveis contra um sistema social que leva atualmente o mundo e a humanidade inteira para a guerra, a destruição, o caos. Eles mostraram, ao mesmo tempo, que em todos os lugares, em condições certamente difíceis, os trabalhadores e os povos resistem com vigor à decadência à qual esse sistema pretende levá-los.

Guerra contra os povos

Como disseram os dois delegados do Afeganistão, “a guerra trágica desenvolvida contra o povo afegão é hoje a guerra do governo Obama, tão criminoso quanto o governo Bush”. Uma guerra pretensamente pela “democracia”, durante a qual “a produção de ópio subiu 30%; a violência contra as mulheres e as crianças também aumentou consideravelmente; milhares de civis foram mortos pelos ataques aéreos”. O orador mostrou até onde vai o cinismo desses criminosos, ao relatar as palavras ditas dois dias antes por um representante da OTAN (aliança militar comandada pelos EUA): “O Afeganistão é um país onde é bom viver… bem melhor do que em Nova York”.

Se há um povo que enfrenta essa política atroz de guerra contra a humanidade é o palestino, que, nas palavras de Salah Salah, membro do Conselho Nacional Palestino, “vive há muito tempo a exploração e a opressão de uma nação inteira, que conta com pelo menos 7 milhões de refugiados”.

Os delegados mostraram ao mesmo tempo a resistência que a classe operária, o campesinato e a juventude opõem a essa política de destruição de seus direitos. Um delegado argelino, por exemplo, sindicalista da empresa estatal de petróleo, explicou como, “depois de uma longa batalha, os trabalhadores e o povo argelino conseguiram retomar para o controle do Estado os hidrocarbonetos em 51%, o que constitui um avanço, ainda que nós continuemos a exigir o controle de 100%”.

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Ataques à independência das organizações operárias

Movimento sindical enfrenta as armadilhas do “diálogo social” e da “governança mundial”

Em sua intervenção, o secretário-geral da UGTA, Sidi Saíd, iniciou um debate (leia na página ao lado) sobre o que fazer diante de uma política que, nas suas palavras, “faz temer o sindicalismo”. E explicou: “Uma situação na qual se vê formar, acima de nossas cabeças, uma aliança não escrita, mas que pesa sobre nossas organizações, que opera um alinhamento à globalização”.

Gene Bruskin, delegado estadunidense, militante da central sindical AFL-CIO, convidou todos a “desconfiar de palavras como ‘consenso’, ‘diálogo social’ e ‘ajuste'” e a “verificar sempre o que elas representam”. Palavras que, na maioria das vezes, são “mentiras, armadilhas para as organizações sindicais”.

Para Marc Blondel, veterano dirigente sindical francês convidado por Sidi Saíd à conferência, é evi-dente que essas palavras nada têm a ver com o sindicalismo operário independente. Constituem, na realidade, uma armadilha mortal para ele: “A ‘coesão social’ entre o operário e o patrão é impossível, é um engodo, é o sindicato a serviço dos patrões”. E acrescentou: “O único ‘trabalho decente’ que eu conheço é o que aplica as normas da Organização Internacional do Trabalho (OIT), todas as normas da OIT”. Quanto à “governança mundial”, afirmou: “Temo que não seja nada mais, nada menos, que a autoridade do FMI”. Não se pode, disse ele, “controlar o papel destruidor do FMI”.

Júlio Turra, da CUT do Brasil, depois de comentar a presença dos diretores do FMI e da OMC no congresso de Vancouver da Confederação Sindical Internacional (junho deste ano), apresentados como “amigos dos trabalhadores”, perguntou em sua intervenção: “É possível uma reforma do FMI? Organização criada para impor os planos de reestruturação, privatizações, cortes nos gastos públicos, ataques em regra contra os salários, os serviços públicos, os direitos dos trabalhadores, as aposentadorias? É claro que não, por isso penso que uma questão importante desta conferência é reafirmar o lugar da independência das organizações sindicais como instrumento de luta dos trabalhadores”.

Princípios do sindicalismo

Patrick Hébert, da CGT-FO da França, constatou que “desacordos e Nunes se exprimem neste debate”, perfeitamente legítimos diante da situação complexa na qual se encontra o movimento operário. Lembrando as bases e os princípios constitutivos do sindicalismo, explicou que décadas de combate de classe comprovaram que “no capitalismo, sob um regime de expio- ração do homem pelo homem, tudo foi conquistado pela relação de forças”.

Para Norbert Benissan, dirigente da União Sindical Independente do Togo (UNSIT), “o diálogo social é o inimigo da independência de classe, é preciso reatar com os fundamentos do sindicalismo”.

Charlie Lendo, vice-presidente da central sindical União Geral dos Trabalhadores de Guadalupe, resumiu essa questão, que se colocou com força durante a greve geral de 44 dias do ano passado em seu país: “O capitalismo e o colonialismo não se humanizam, combate-se”.

Participantes definem coordenação internacional

No encerramento, foi lembrada a 1ª CMA, em Barcelona (1991), que lançou as bases para a discussão desenvolvida em Argel.

Coube a Louisa Hanoune, a quem Sidi Saïd havia dado o mandato para falar em nome de toda a delegação argelina, e a Daniel Gluckstein, em nome do Acordo Internacional dos Trabalhadores e dos Povos (AciT), concluir a conferência.

Para Gluckstein, “há cerca de 20 anos, em Barcelona (na Conferência Mundial Aberta), foram lançadas as bases, que se ampliaram consideravelmente nesta Conferência Mundial Aberta. Ocorreram debates de uma grande riqueza, de uma grande franqueza. A questão que está colocada para todos nós é: em que condições a classe operária pode se defender, senão ao se reapropriar de suas organi-zações?”. Fazendo referência explícita à Primeira Internacional, a Associação Internacional dos Trabalhadores, ele concluiu: “Não há outra saída a não ser a busca combinada da unidade em torno daquilo que nos é comum e da diversidade no respeito às posições de uns e de outros”.

Louisa Hanoune assinalou mais uma vez “a importância desta conferência realizada em Argel, em terra africana, na sede da Mutual do Sindicato dos Trabalhadores dos Materiais de Construção, na diversidade do movimento operário internacional, das delegações vindas de países imperialistas e de países oprimidos”. Ela lembrou que, “para nós, não há distinção entre países fortes e fracos, pequenos ou grandes, mas um combate comum contra um sistema capitalista que vive uma crise sem precedentes e que gera os ataques mais brutais contra todos os povos, precipitando o mundo na anarquia”.

Ao aprovar uma declaração (leia na página 5), os delegados aceitaram a proposta de que os membros da tribuna da conferência se constituíssem em coordenação internacional do Acordo Internacional dos Trabalhadores e dos Povos (AcIT). Eles decidiram também que a atividade de impulsionar o AcIT será operada conjuntamente a partir de Paris e de Argel.

Entre as iniciativas, carta a Dilma sobre o Haiti

Outras importantes questões fizeram parte da conferência e marcaram seus debates. Entre elas, podem ser citadas: a situação e as lutas das mulheres trabalhadoras e da juventude; o combate para tirar o jornalista negro estadunidense Mumia Abu-Jamal do corredor da morte; o combate desenvolvido pelo Comitê Internacional contra a Repressão (CICR) pelo fim da repressão que atinge o sindicalista russo Urusov, aprisionado, e os sindicalistas da central sindical de Guadalupe, a UGTG, perseguidos pelo poder colonial francês.

Esses temas foram abordados em reuniões ocorridas paralelamente às sessões plenárias da conferência, e deram origem a iniciativas abertas à assinatura dos participantes, como o apelo dirigido a Dilma Rousseff, presidente eleita do Brasil, para que retire as tropas brasileiras que comandam a missão de intervenção no Haiti.

Países participantes

Afeganistão • Alemanha • Argélia • Azânia (África do Sul) • Bangladesh • Bélgica • Benin • Brasil • Burkina Fasso • Burundi • Camarões • Chade • China • Coreia • Eslováquia • Espanha • Estados Unidos • Filipinas • França • Gabão • Grã- Bretanha • Guadalupe • Haiti • Hungria • índia • Iraque • Itália • Lesoto • Líbano • Mali • Marrocos • Martinica • Maurício • México • Moldávia • Nigéria • Palestina • Paquistão • Portugal • República Centro-Africana • República Tcheca • Reunião • Romênia • Rússia • Senegal • Sérvia • Suécia • Suíça • Togo • Tunísia • Turquia • Venezuela

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Imprensa da Argélia destaca Conferência

A imprensa argelina deu ampla cobertura à 8ª Conferência Mundial Aberta (CMA) contra a Guerra e a Exploração. Sob o título “Os bárbaros estão às nossas portas” – referência à declaração de um sindicalista irlandês quando uma missão do FMI desembarcava em seu país -, “La Tribune” de 28 de novembro anunciou a abertura da conferência, “co-organizada pela UGTA, o Partido dos Trabalhadores e o Acordo Internacional dos Trabalhadores e dos Povos. É a primeira vez que essa conferência ocorre no continente africano, precisamente na Argélia. Fato que muitos participantes, militantes operários, personalidades políticas e dirigentes sindicais, vindos de 60 países, saudaram”.

“Liberté”, da mesma data, citou Louisa Hanoune, para quem “são as riquezas naturais, como o urânio, o petróleo e o ouro que estão por trás do apetite das potências mundiais, que bus-cam se impor por meio do terrorismo”. Além disso, afirmou ela, “as crises atingem países capitalistas desenvolvidos, nos quais medidas para salvar o capital são tomadas em detrimento dos interesses dos operários e dos jovens”.

Debater os entraves

“Le Courrier d’Algérie”, de seu lado, viu nessa conferência “uma oportunidade de debater o futuro da classe operária (…), uma ocasião para o debate dos diferentes entraves encontrados pela classe operária em todo o mundo”.

Esse jornal citou Daniel Gluckstein, coordenador internacional do Acordo Internacional dos Trabalhadores e dos Povos, para quem “a nova ordem internacional que os poderosos do mundo querem instaurar, apoiados por todos os governos com assento na ONU, a serviço e em proveito da especulação, conduz ao agravamento da opressão dos povos dominados e da exploração dos trabalhadores do mundo inteiro”. Para apoiar suas palavras, o orador observou que a dívida mundial é de 90 trilhões de dólares, e que em nenhuma hipótese “deveria caber à classe operária pagar um único centavo”.

Para o jornal “Horizons”, “a ambição fixada na abertura dos trabalhos da conferência é a de caminhar para uma mobilização internacional da classe operária, a fim de se contrapor à política imperialista (…). Os oradores, por unanimidade, acentuaram a necessidade de conjugar esforços e de coordenar as ações”.

“L’Expression” citou o secretário-geral da UGTA, Abdelmadjid Sidi Saïd, para quem, com os mercados financeiros, “estamos diante de bombeiros piromaníacos, enchendo de gasolina um motor ao qual puseram fogo, com a convicção de vê-lo voltar a funcionar”.

Jovens de 17 países se reúnem

Participantes decidem editar boletim bimestral para trocar experiências e manter uma ligação permanente

Os jovens presentes à Conferência Mundial Aberta contra a Guerra e a Exploração realizaram uma reunião para trocar experiências das lutas que desenvolvem em seus países e manter uma ligação entre si.

A mesa foi formada por representantes da ORJ (Organização de Jovens pela Revolução) da Argélia, da JR-IRJ (Juventude Revolução, Brasil) e da AJR (Aliança de Jovens pela Revolução) da França.

Cerca de 40 jovens de 17 países (Argélia, Brasil, França, Hungria, Burundi, Palestina, Paquistão, Haiti, Alemanha, Guadalupe, Estados Unidos, Suíça, Azânia (África do Sul), Marrocos, Romênia, Eslováquia e Republica Tcheca) participaram dos debates.

A reunião foi aberta pelos jovens argelinos, que relataram a situação de suas lutas e apresentaram a proposta de manter uma ligação entre os presentes através de um boletim internacional.

Um  jovem  da  Palestina  contou que  “a  maioria  dos  mártires  na Palestina  são  militantes  jovens,  a maioria  dos  presos  nas  prisões israelenses  também.  No  sistema educacional, enquanto um jovem de Israel  leva  quatro  anos  para  se  formar,  os  da  Palestina  passam  cerca de dez anos. Além da dificuldade de organização, pela pressão forte que sofre a juventude” .

Os  jovens  do  Paquistão explicaram  que  em  seu  país  não podem  organizar-se  como  estudantes,  pois  é  proibido.  Mas  eles buscam  os  sindicatos  dos  trabalhadores e neles se filiam para, dessa forma, estar organizados para lutar.

Ao  final  da  reunião  foi  adotada uma declaração dos jovens contra as guerras e a exploração e  foi  formado  um  comitê  de  redação  responsável pela publicação de um boletim bimestral  abordando  a  luta  dos jovens  em  todo  o  mundo.

Inicialmente  o  comitê  é  formado pela  ORJ-Argélia,  JR-Brasil  e  AJR-França, mas está aberto para outros membros.  O  primeiro  boletim  será lançado em janeiro de 2011.

Brasileiros na Argélia

A delegação brasileira na conferência era constituída por oito companheiros e companheiras. Eram eles Julio Turra e Shakespeare Martins, ambos da executiva nacional da CUT, Fernando Ferro, deputado federal pelo PT de Pernambuco, Milton Barbosa, dirigente do Movimento Negro Unificado (MNU), Markus Sokol (membro do DN PT) e Misa Boito (DR PT SP), ambos da corrente O Trabalho, Miriam Gonçalves, advogada trabalhista e vice-presidente do PT de Curitiba, e Joelson Souza, delegado da Juventude Revolução.

Tomaram a palavra em plenário, entre os 97 oradores, Julio, Milton, Ferro e Joelson, sendo que este último também participou da reunião dos jovens.

Fernando Ferro, no início de sua intervenção, recordou que quando ocorreu o golpe de Estado militar de 1964 no Brasil, foi na Argélia que encontraram asilo vários militantes perseguidos, entre eles o então governador de seu estado, Miguel Arraes.

Milton Barbosa arrancou aplausos ao dizer de sua “imensa satisfação por estar nesta terra que Frantz Fanon (nascido na Martinica) escolheu para fazer revolução, nos ensinando que a pátria do revolucionário é o mundo” e ao centrar a sua intervenção na defesa da soberania do heroico povo do Haiti, protagonista da “única revolução vitoriosa de escravos na história da humanidade”. A partir daí o companheiro apresentou ao plenário a proposta inspirada na Carta à presidente eleita do Brasil que exige a retirada das tropas do Haiti.

Shakespeare Martins disse ao nosso jornal que “foi um encontro importantíssimo de sindicalistas e militantes em que ouvimos oradores de vários países que relataram as mais diversas situações e dificuldades de opressão e mesmo de guerra, e chegamos à conclusão que é preciso aglutinar todos na resistência e numa luta conjunto para reconquistar nossos direitos”.

Intercâmbio com delegados de outros países, é claro, também fez parte das atividades da delegação.