Florestan Fernandes: uma vida dedicada a compreender o Brasil

Profa. Dra. Ana Paula Ferreira da Silva *

Há 100 anos nascia um brasileiro como tantos meninos pobres. Florestan Fernandes não conheceu seu pai e foi criado por sua mãe, Maria, empregada doméstica de Hermínia Bresser. Segundo o próprio Florestan, conviver com a família Bresser foi fundamental para que percebesse as diferenças entre classes sociais e, principalmente valorizasse a instrução. Aos seis anos de idade, já trabalhava como auxiliar em uma barbearia e depois como engraxate.

Estudou até o terceiro ano primário (atualmente o Ensino Fundamental) e só retornou anos mais tarde, aos 17 anos, frequentando os curso de madureza (equivalente à Educação de Jovens e Adultos). Esse inicio de vida escolar acidentado fez com que não fosse bem aceito no ensino superior, mas ainda assim ingressou no curso de Ciência Sociais na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, em 1941. Em 1945, ingressou na carreira docente como assistente do professor Fernando de Azevedo. Sua dissertação de mestrado realizada na Escola Livre de Sociologia e Política tratou sobre “A organização social dos Tupinambá”. Em 1951 defendeu sua a tese de doutoramento, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Intitulada “A função social da guerra na sociedade tupinambá”, a tese tornou-se um clássico da etnologia brasileira. Em 1964 efetivou-se na cátedra de Sociologia com a tese “A integração do negro na sociedade de classes”.

Diante da sua origem e da sua história de vida, dedicou sua carreira para interpretar a realidade social brasileira e suas desigualdades entranhadas. Seus estudos contemplaram a população indígena, os colonizadores portugueses e demais europeus, os povos africanos escravizados e os trabalhadores livres árabes e asiáticos. Também desde 1940 esteve ligado aos movimentos populares e às organizações políticas. Aposentado e exilado em 1969, durante o período de Ditadura Militar, Florestan retornou para o Brasil em 1986 e entre 1987 e 1995, foi deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores (PT), tendo participado do Congresso Constituinte.

Florestan é, sem dúvida, um intelectual brasileiro do século XX cuja obra possibilita compreender as profundas relações entre as desigualdades, as questões de classe social e a condição de subdesenvolvimento que o Brasil sempre ocupou no mundo capitalista.


* Ana Paula é Professora do programa de Pós graduação da
PUC EHPS – Educação: História, Política, Sociedade


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Um comentário em “Florestan Fernandes: uma vida dedicada a compreender o Brasil

  • 22 de julho de 2020 em 22:49
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    Florestan é um retrato de nossa sociedade. Esta notícia não poderia passar despercebido !

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