Renda dos trabalhadores piora brutalmente

Dados divulgados pelo Ministério da Economia revelam o esmagamento das condições de vida dos trabalhadores após a pandemia da Covid-19. E a situação pode ser ainda pior do que os dados demonstram. Leia o artigo de Cristiano Junta, do DAP São Paulo.

Trabalhadores sofrem com brutal piora na renda

Cristiano Junta

Bolsonaro e Paulo Guedes
Bolsonaro e seu ministro Paulo Guedes, o arquiteto do desemprego queridinho dos bancos

O Ministério da Economia divulgou em 27 de maio dados que revelam o esmagamento das condições de vida dos trabalhadores. De acordo com os dados, só nos meses de março e abril 9,2 milhões de trabalhadores formais tiveram seus salários reduzidos ou foram mandatos embora. 1,1 milhão foram demitidos e 8,1 milhões foram empurrados para o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda criado pela Medida Provisória 936/20, que permite a suspensão do contrato de trabalho e a redução de salário e jornada.

Demissões

De acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), desses 1,1 milhão de novos desempregados a maioria vem do:

  • setor de Serviços: 458,7 mil.

Na sequência, os setores que mais reduziram vagas de emprego formal foram:

  • Comércio: -296 mil vagas;
  • Indústria: -223,5 mil vagas;
  • Construção: -79,9 mil vagas e
  • Agricultura: – 9,6 mil vagas.

De acordo como Caged de janeiro até a primeira quinzena de maio, foram 2.841.451 de pedidos de seguro-desemprego no país, o que representa uma alta de 9,6% frente ao mesmo período do ano passado. A taxa de desemprego, com isso, subiu para 12,2% no primeiro trimestre do ano, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Agora são 12,9 milhões de pessoas desempregadas no país, um aumento de 1,3% em relação ao final de 2019.

Corte de salários

O Ministério da Economia comemorou o sucesso do programa divulgando dados os quais mostram que, dos trabalhadores prejudicados pela
medida, 54,4% tiveram seus contratos suspensos, ou seja, 4,4 milhões.
Ainda tiveram:

  • redução de 70% no salário: 991 mil trabalhadores;
  • redução de 50% no salário: 1,4 milhão de trabalhadores e
  • redução de 25% no salário: 1,1 milhão.

Ampla queda de renda

Porém, o número de trabalhadores formais que tiveram sua renda reduzida é ainda maior. Os dados acima não contam o mês de maio. De acordo com o próprio governo, até o dia 26, ao todo 1,2 milhão de empresas notificaram o Ministério para informar a suspensão de contratos ou redução de salários. Ou seja, 13,5% do total de empresas do país, excluindo as microempresas individuais.
Isso tudo é só parte do problema. Há ainda o corte de horas-extra e gratificações, benefícios associados aos salários com somas importantes em muitas categorias. É o que ajuda a explicar que algumas pesquisas apontam a possibilidade da redução de renda dos trabalhadores ser ainda mais ampla. De acordo com a pesquisa de uma agência financeira com 410 mil pessoas, 54% dos trabalhadores com carteira assinada tiveram redução de renda no mês de abril. Pior, há uma queda média de renda para esses trabalhadores de 31%. Entre os trabalhadores informais, 61% afirmam que tiveram sua renda diminuída em abril – esses perderam em média 37% de sua renda, de acordo com essa pesquisa.

Inadimplência

A diminuição da renda dos trabalhadores, como é esperado, leva à inadimplência. Segundo dados de uma empresa de monitoramento de crédito, a inadimplência de pessoas físicas no Brasil aumentou 5,8% em abril, frente a março desse ano. Já o índice de pessoas que não conseguem pagar suas contas de energia elétrica subiu para 10,16% de todos os consumidores no mês passado – no mesmo período de 2019, era 2,4%. Ao mesmo tempo, a taxa de inadimplência em faculdades privadas alcançou 26,3% no país, um aumento de 72,4% em comparação com o ano passado, informa a 2ª edição da Pesquisa Cenário Econômico Atual das IES Privadas.

Publicado originalmente no Jornal O Trabalho 867

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