Daniel Ortega anuncia fim de eleições na Nicarágua

Em 19 de julho, no ato de comemoração aos 47 anos da Revolução Sandinista, o presidente Daniel Ortega declarou: “Não haverá mais eleições na Nicarágua”.

Esse anúncio, por mais chocante que seja para quem não acompanhou a sua evolução – ou melhor, involução –  política, coroa o processo de abandono das posições da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) por parte do atual presidente, acompanhado por uma perseguição implacável aos seus antigos companheiros que lideraram a revolução no país centro-americano.

Muitos fecharam os olhos para o enriquecimento de Ortega e seus familiares a partir de 1990, quando terminou o seu mandato presidencial obtido em 1985. Na sua volta ao poder em 2007, teve como vice-presidente um banqueiro que fora vinculado aos “contras” (que lutaram, armados pelos EUA, contra os guerrilheiros da FSLN).

A perseguição brutal aos veteranos sandinistas iniciou-se após os pactos eleitorais feitos por Ortega, então na oposição, com o empresário direitista Arnoldo Alemán (presidente entre 1997 e 2002), visando diminuir o percentual de votos necessários para chegar à presidência e obter a reeleição presidencial indefinida. 

Tal como Stálin, que eliminou praticamente toda direção bolchevique que liderou a revolução russa em 1917, Daniel Ortega perseguiu dirigentes como Dora Maria Téllez, Sérgio Ramirez, o padre Ernesto Cardenal, Monica Baltodano, dentre muitos outros, que tiveram os bem sequestrados, sofreram prisões, e exilados com o confisco de sua nacionalidade.

Sobre a base desses expurgos que transformaram a FSLN num dócil instrumento em suas mãos, Ortega desde 2007 vem sendo reeleito presidente. No período 2017-2022, já tendo como vice a sua esposa Rosário Murillo, que também é responsável pela brutal repressão em 2018 contra manifestações pacíficas, principalmente de estudantes, que eclodiram no país contra uma reforma da previdência social, provocando a morte de centenas de nicaraguenses. 

A ex-guerrilheira Monica Baltodano e Secretaria de Organização da Frente, desde o seu exílio na Costa Rica disse ao jornalista uruguaio Raúl Zibechi: “A ironia é devastadora; os que combateram uma ditadura terminaram sendo perseguidos por outra que fala em seu nome”. (leia aqui )

A realidade é que a família Ortega se apropriou de fundos ligados à importação de petróleo da Venezuela, participa em vários negócios com seus aliados empresariais, convertendo-se numa nova oligarquia que utiliza o Estado para proteger seus interesses.

Quando da visita de Baltodano ao Brasil, abril de 2023, reuniu-se com membros do DAP e ativistas de Direitos Humanos, em São Paulo. A seu pedido, nós do DAP apresentamos numa reunião do Foro de São Paulo, uma Carta Aberta dos expatriados apoiada por intelectuais brasileiros: “Pedimos apenas que levantem sua voz em favor dos direitos humanos na Nicarágua e dos 70 prisioneiros políticos” ( leia aqui )

Houve acordo da maioria dos membros da Executiva nacional do PT, mas parou na então presidente Gleisi Hoffman. Nos corredores, se soube que “os cubanos” haviam vetado qualquer crítica ao regime orteguista.

Desde então a trajetória ditatorial do casal presidencial só veio se acentuando. Conflitos com a Igreja Católica também ocorreram, e o próprio governo Lula se distanciou do governo nicaraguense. Como se diz popularmente, “não foi por falta de aviso”.

Julio Turra, membro do Setorial Sindical Nacional do PT

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