Crise entre juízes “vermelhos” e “azuis” no TST tem interesse dos patrões por trás
A reforma trabalhista de Temer segue pesando sobre 44 milhões celetistas (dados de 2023). Em 2017, um pacote impôs o negociado sobre o legislado, contratos intermitentes, dificuldades no acesso à justiça e o estrangulamento do financiamento dos sindicatos que, combinados à terceirização irrestrita e às pejotizações, levou patrões a crer que enterraram a capacidade de resistência dos trabalhadores. Um sintoma é a recente crise em sessão do Tribunal Superior do Trabalho (TST), nessa segunda (4), entre o presidente, Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, e o ministro Ives Gandra da Silva Martins Filho, conhecida estrela da direita que indica que os patrões ainda não liquidaram a fatura
Ives classificou os juízes, em um slide apresentado em curso do Instituto de Estudos Jurídicos Aplicados (IEJA), como “azuis” e “vermelhos” – os primeiros seriam “liberais” e os outros “intervencionistas”. Esse alerta aos advogados que atuam no TST partiu justamente do ministro que não poupa elogios à reforma trabalhista de Michel Temer e, na prática, serve para beneficiar os advogados patronais e intimidar os demais
Segundo o Estadão, dos 25 ministros do TST, pelo menos 14 figuram em materiais de divulgação do IEJA. Este Instituto se apresenta como uma “rede exclusiva de juristas e lideranças com acesso a encontros, conteúdos e relações estratégicas que aceleram carreira, reputação e protagonismo”. Vieira de Mello anunciou que pretende cortar o dia de salário dos que faltarem às sessões para participar dos cursos pagos e bem remunerados.
Pagamento de mais de R$ 50 bi é recorde aos trabalhadores
No TST, Ives Grandra acusou que uma interpretação da lei que amplie os direitos trabalhistas “vai fazer cair o peso (…) nas empresas no sentido de que vai ser mais difícil dar empregabilidade”. Tal como no argumento cínico contra fim da jornada 6X1.
O nervosismo na Corte tem um contorno financeiro e de classe. Em 2025, a Justiça do Trabalho registrou o pagamento recorde de R$ 50,6 bilhões aos trabalhadores, o maior valor nominal da série histórica. O número de ações trabalhistas também deve ser um fator de indignação entre os patrões e seus “juízes azuis”, pois no mesmo ano, o número de novos processos superou os níveis anteriores à reforma de 2017. No fundo, com a marcha-lenta das centrais sindicais, esses processos não deixam de ser uma forma de luta contra as consequências da reforma trabalhista que sobra ao trabalhador.
STF reacionário
Esses são os motivos que movem a ofensiva do STF e da PGR sobre a Justiça do Trabalho. Diferentemente do TST, o STF tem um caráter de classe mais nítido. Em 2025, o ministro do STF, Gilmar Mendes suspendeu os processos judiciais contra a “pejotização” – contratação de empresas terceirizadas ou de trabalhadores sob a forma de pessoa jurídica. Em fevereiro de 2026, o PGR, Paulo Gonet, enviou ao Supremo parecer favorável à pejotização e avaliou que esses casos devem ser julgados pela Justiça comum, não pela Justiça do Trabalho, dificultando o reconhecimento de fraudes trabalhistas.
A palavra final será dada pela ação dos trabalhadores. A luta pela revogação da reforma trabalhista, integrada pelo 8º Congresso do PT pela ação dos delegados do Diálogo e Ação Petista, deve, junto com as centrais sindicais, entrar nas ruas e no programa de governo de reeleição de Lula, afinal uma lei do futebol se aplica aqui, “quem não faz, leva”.
Roberto Oliveira

