Que conversa é essa?

Misa Boito*

Alguns petistas abriram saraivada contra a candidatura de Jilmar. Independente da intenção deles, fazem o jogo dos que querem anular o PT

Em 19 de maio, três dias depois da escolha de Jilmar Tatto como candidato do PT à prefeitura paulistana, a Folha de São Paulo lamenta a decisão, “se houver novidade na eleição para a prefeitura paulistana, não virá do PT”, em editorial contra o partido intitulado “Vício petista”.

O PT escolheu seu candidato em legítimo processo interno. A Folha não gostou. Deve estar gostando menos ainda, agora que Jilmar demonstra disposição para uma campanha com a cara do PT, dialogando com as necessidades do povo trabalhador sobre questões candentes. Jilmar, por exemplo, tem destacado a defesa e ampliação dos serviços públicos. “Se privatizar vamos reverter”, foi o compromisso que assumiu publicamente em ato contra a entrega, a uma Organização Social, do Hospital do Campo Limpo (zona sula da capital paulista).

O medo da Folha

Para aqueles que pretendiam eliminar o PT, agora desesperados atrás de uma alternativa viável (“ao centro”) que mantenha a política de Bolsonaro/Guedes, a presença do PT nas eleições paulistanas (e não só), incomoda, e muito!

A Folha e outros órgãos da grande imprensa devem estar ainda mais incomodados com a possibilidade do PT mostrar nestas eleições municipais que está vivo, e bem vivo, depois de anos de perseguição, de achincalhamento pelos meios de comunicação, do golpe de 2016 e da prisão de Lula em 2018 numa condenação forjada. Mais até do que mostrou nas presidenciais de 2018, agora que as consequências da perseguição ao PT se explicita a que veio.

Em que pesem erros cometidos – por exemplo as alianças com partidos contrários aos interesses do povo ou profundas reformas não feitas nos 13 anos de governo – o fato concreto é que a sobrevivência do PT advém daquilo que ele tem de mais genuíno: seu enraizamento profundo junto às camadas do povo trabalhador que anseia por mudanças, pois vive numa situação deplorável que se escancarou, e piora, com a pandemia.

É o PT que pode articular, com outros parceiros, uma saída deste desastre que vive o país, na luta pelo fim do governo Bolsonaro.

As eleições municipais serão uma trincheira nesta batalha. Com candidaturas petistas que respondam às necessidades do povo e façam de suas campanhas uma tribuna de defesa do partido e da restituição dos direitos políticos de Lula.

Por isso não se pode aceitar a verdadeira saraivada de ataques, com direito a bom espaço na grande imprensa, que a candidatura de Jilmar vem sendo alvo. Folha, Valor, Globo abrem as páginas para “conselheiros” de maus conselhos.

“Conselheiros” de maus conselhos

Tarso Genro, que tentou refundar o PT sem conseguir, envia seus maus conselhos dos pampas gaúchos: para que o partido em São Paulo retire a candidatura de Jilmar do PT, em apoio a Boulos do PSOL, mostrando “grandeza política para ter uma candidatura de unidade da esquerda”.

Até das alterosas chegam mensagens: Rogério Correia defendia que o PT não apresentasse candidatura em Belo Horizonte para apoiar o PSOL, depois disputou a pré-candidatura com Nilmário Miranda e perdeu, agora elogia a prévia do PSOL em São Paulo e deseja boa sorte à chapa  (jornal O Tempo).

PT abrir mão da candidatura em SP?

Breno Altman fala com a desenvoltura de quem é especialista sobre tudo. Aconselha a retomar a pressão pela candidatura Haddad (num apelo que chega a ser constrangedor, para o próprio Haddad e para todos os petistas que consideram o candidato escolhido o seu candidato). E, se o apelo não der certo, vaticina: o PT deve ir de Boulos e Erundina!

Todos estes conselheiros, têm por argumento a unidade da esquerda. Ossos do ofício, tenho lido e ouvido o que escrevem e falam. Breno Altman nos explicou (TV 247) que o PT, pela sua importância tem a responsabilidade de unificar a esquerda e por isso deve abrir mão da candidatura de Jilmar. Deixando de lado o exemplo que Breno reivindica da política do Partido Comunista chileno quando da eleição de Allende do Partido Socialista (precisamos lembra-lo que o PT nasceu demarcando-se dos PCs e PSs, mas isto é assunto para outro momento), é notável a arrogância de quem acha que sabe tudo.

O argumento de “unificar a esquerda” à condição de que o partido que tem maior responsabilidade no cenário político perca por WO, é recheado com previsões de desempenho eleitoral, onde o PSOL levaria vantagem. Isto numa cidade em que o PT segue implantado em todas as regiões e em particular na periferia – apesar de alguma perda de base social. Aliás, Jilmar é originário da periferia da zona sul de São Paulo.

É bom lembrar

Boulos, candidato às presidenciais em 2018, pode estar aparecendo à frente nas pesquisas, é verdade. Isto sem que a campanha eleitoral tenha começado. Lembro aqui que Haddad em 2012, no começo, aparecia com 3%. E dou também um dado, que não é pesquisa, é resultado: na capital paulista, em 2018, no mesmo dia em que Boulos teve pouco mais de 187 mil votos para presidente, Jilmar Tatto teve 770 mil votos como um dos candidatos do PT ao Senado.

O que importa nessa discussão é: sacrificar o partido que tem nacionalmente a responsabilidade maior na luta pelo fim do governo Bolsonaro, em nome da unidade da esquerda, na principal cidade do país, onde o PT tem raiz, é, independentemente das intenções, um profundo desserviço ao PT e, portanto,  à luta da esquerda.

Não vou sugerir ao nosso estrategista que sugira a Boulos abrir mão da candidatura em nome de uma unidade PSOL/PT. Não está nos planos deste partido, e é um direito que lhes cabe. E, estamos falando de primeiro turno. No segundo, quero crer, marcharemos juntos, e com Jilmar na cabeça. É para isso que todos os militantes do PT deveriam estar trabalhando. Chega de conversa, vamos fazer campanha!

*Misa Boito é membro da Executiva Estadual do PT São Paulo
e do Comitê Nacional do Diálogo e Ação Petista

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