Alegria e insatisfação na Vila Euclides, um depoimento

Um domingo de sol no ABC, um ato no histórico estádio de Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, no mesmo local onde, em 1979, uma greve de metalúrgicos desafiava a ditadura e incendiava o país. Foi no dia 16 de agosto, data escolhida para o lançamento da campanha Lula Presidente 2026. O que podia dar errado?

Centenas de ônibus chegavam de todo o estado e bairros da capital. Entre eles, vários organizados pelo DAP que além dos seus associados, traziam petistas de diversos grupos e de diversas candidaturas, entre eles, os que estão na de Claudinho (ex-ouvidor da PM) para deputado estadual. No ônibus, apresentamos e discutimos o Manifesto do Encontro do dia 8 de agosto pela Reforma Política Radica. Muitos concordavam com o conteúdo: “Acho que agora vai, né, ele tem a última chance de fazer as reformas que não conseguimos fazer nos outros governos do PT”.

Entramos, depois de quase uma hora na fila, com cartazes do DAP e a faixa do Movimento pela “Reforma Política Radical!” que foi para a arquibancada. Muitos viram, pelo menos uma TV registrou.

As expectativas eram altas, todos ansiosos para o discurso do presidente.  Muitos deles estiveram na Convenção Nacional e esperavam que o presidente seguisse na linha : “Tem de falar do Trump, pô, até a Globo tá falando em imperialismo…”

Entrando no estádio, havia um imenso telão, cujo palco ia até o meio da multidão, o que aproximava os oradores do povo. “Parece show de rock”, diziam uns. “Vai dar pra ver o Lula falando”. Isso só fazia crescer as expectativas, que aumentavam sob um calor intenso, depois da longa espera, quando finalmente entrou Lula, com vídeo e depoimentos de antigos companheiros metalúrgicos do sindicato. Numa busca de conexão com seu passado, Lula recebeu os dirigentes no palco em um momento emocionante, mas que falava mais do ontem do que de hoje, numa tentativa de recontar a sua história.

Depois da fala da Janja, que terminou num gospel a título de “jingle” do Lula, se seguiram falas do candidato a governador, Haddad, e do vice presidente Alckmin. Finalmente, começou o discurso do Lula, o povo esperava muito. Não só as horas no estádio, mas todas a mudanças que, depois de anos de mandatos do PT, ainda seguem necessárias e urgentes.

O peso do discurso ficou no passado, como se Lula olhasse pelo retrovisor a sua história, e com isso, justificasse tudo. Se era para incendiar a militância num ato histórico, o que vimos na arquibancada, entre o público, foi a impaciência que crescia a olhos vistos. Reclamações do calor, da sede e da desorganização, eram murmuradas entre o público, que parece que não se identificava muito com o discurso. Vimos claramente o estádio se esvaziando bem antes do discurso acabar. O entusiasmo da chegada foi substituído pelo cansaço. Só cansaço?

Na saída, quando esperávamos os ônibus, encontramos um grupo de jovens apoiadores de alguns candidatos, muitos deles filhos e filhas de militantes petistas. Uma delas, que conheço há anos, me procurou alegre pelo encontro, mas insatisfeita: “Babi, ele não precisava se apresentar pra nós, foi como se ele ficasse mostrando as medalhas do passado. E, no fim, não preparou a gente pra guerra que vai vir, que será essa eleição”.  

Na volta, silencio no ônibus, parece que o entusiasmo havia ficado no caminho. Um professor da rede municipal, petista, me disse “vocês do DAP são foda, numa multidão dessa, e com uns cartazes e um punhado de panfletos, colocaram a gente pra pensar. Parabéns”.

Barbara Corrales (Babi), DAP SP Capital

Leia também

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *