Venezuela: O impacto político, social e econômico do terremoto

Publicamos abaixo artigo do Comitê Autônomo e Independente de Trabalhadores (CAIT) da Venezuela de 29-6-2026.

As catástrofes naturais revelam a crueza da realidade. Não geram as crises, simplesmente desvelam as aparências. Os dois grandes terremotos que afetaram a Venezuela, com epicentros em Caracas e La Guaira, romperam a normalidade social e econômica de um país que já lutava, com grande esforço, para se reerguer. A tragédia desencadeia-se em um contexto complexo, marcado pela agressão militar de 3 de janeiro com a imposição da tutela norte-americana.

Quarenta e oito horas após os terremotos mais poderosos em 125 anos, os Estados Unidos se aproveitaram da catástrofe.

O Comando Sul enviou 100 membros da força aérea para assumir a gestão do Aeroporto Internacional Simón Bolívar, o qual opera parcialmente devido aos danos estruturais; 130 marines chegaram ao porto de La Guaira para trabalhar na reabertura do terminal. Além dos vários helicópteros militares que transportaram membros do Departamento de Estado para dirigir a missão.

Até o momento, a Venezuela recebeu mais de 1.600 socorristas internacionais.

A interina Delcy Rodrigues nomeou o general Juan Sulbarán, Autoridade Única de Emergência na zona militarizada de La Guaira.

Em apenas alguns dias, emergiu uma força social que transcenderá a emergência atual. Esse fenômeno revela os pontos fortes e fracos das instituições, mas também a capacidade da sociedade de se organizar, cuidar dos mais vulneráveis e construir respostas de baixo para cima; uma energia popular que marcará o futuro, como mostram os vizinhos que removem escombros com as próprias mãos, os estudantes tornados socorristas, os médicos que improvisam hospitais e as igrejas, universidades e organizações comunitárias que coordenam centros de arrecadação.

A ONU estima os danos em 6,7 bilhões de dólares (6% do PIB). A tragédia freia a frágil recuperação econômica após uma década de profunda depressão. Para enfrentá-la, o Executivo anunciou um fundo de reconstrução de 200 milhões de dólares provenientes das reservas do FMI, valor que os analistas consideram insuficiente diante da magnitude do desastre.

Os Estados Unidos anunciaram um pacote de assistência humanitária de 150 milhões de dólares e suspenderam certas sanções. A União Europeia enviou ajuda, mas recusou-se a modificar suas medidas restritivas. As nações que oferecem apoio temporário são as mesmas que impõem as sanções que asfixiaram Venezuela, dificultando sua capacidade autônoma de resposta aos desastres.

O total de ativos venezuelanos congelados no exterior é estimado em bilhões de dólares. O economista Asdrúbal Oliveros calcula em 22 bilhões de dólares, embora não aja uma auditoria formal, 8 bilhões de dólares correspondem à venda de petróleo que sob controle direto do Departamento do Tesouro dos EUA.

A reconstrução da Venezuela não deve seguir a lógica do livre mercado nem se converter em um benefício para as elites. É crucial que o povo e a classe trabalhadora desenvolvam um plano de emergência nacional baseado na solidariedade ativa, na soberania e no controle popular. Para evitar que os recursos sejam desviados e a crise se agrave, levantam-se três exigências urgentes:

  • Primeiro: O fundo de emergência do FMI, a ajuda internacional e os recursos liberados das sanções devem destinar-se exclusivamente à reparação civil, evitando que se percam na burocracia ou nos leilões de divisas do Banco Central.
  • Segundo: A solução habitacional deve surgir das comunidades organizadas. O Estado deve facilitar, sem impor barreiras burocráticas, cercos militares nem intervenções estrangeiras que comprometam a soberania.
  • Terceiro: É vital a devolução imediata dos bens venezuelanos retidos em bancos no exterior. É inadmissível que, enquanto o país enfrenta uma grave escassez de maquinários e medicamentos, recursos próprios permaneçam sequestrados.

A classe trabalhadora não pode se deixar distrair em meio à crise. A direita tradicional tentará desviar o debate público para discussões convenientes, mas hoje a prioridade absoluta é atender às necessidades materiais do povo que constitui a maioria social do país, que exige uma vida digna e já se mobilizou nas ruas para resgatar vidas.

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