Quando a água vira lucro: a ofensiva que põe em risco os rios da Amazônia
O Brasil acompanha um conflito que revela mais do que uma disputa técnica sobre infraestrutura. O impasse em torno da hidrovia no rio Tapajós, no oeste do Pará, expõe um projeto de país que avança sobre a Amazônia sem medir consequências ambientais ou humanas. O governo federal suspendeu a licitação da obra após protestos de povos indígenas e ribeirinhos, mas o gesto foi mínimo. O decreto que abre caminho para privatizar três grandes rios da região segue em vigor e mantém aberta a porta para um modelo que sacrifica territórios inteiros em nome do lucro.
O decreto 12.600, publicado em agosto de 2025, transforma os rios Tapajós, Tocantins e Madeira em corredores de exportação de soja e milho. Ele integra o Arco Norte, iniciativa pensada para acelerar o escoamento de commodities para mercados como China e Europa. O discurso oficial fala em “modernização logística”. Na prática, o projeto consolida a dependência nacional de um agronegócio que avança sobre a floresta, concentra renda e deixa nas comunidades amazônicas o peso da destruição.
No Tapajós, povos indígenas e milhares de ribeirinhos sustentam suas casas com a pesca, o turismo e o equilíbrio do rio. Eles alertam que a dragagem prevista pode espalhar mercúrio acumulado há décadas, afastar peixes e modificar praias que garantem alimentação, sustento e identidade cultural. Ignorar esses alertas significa aceitar a precarização deliberada de populações que já enfrentam pressões do garimpo, da grilagem e de grandes empreendimentos energéticos.
A gravidade aumenta porque as comunidades não foram consultadas antes da aprovação do projeto. O governo ignorou um direito assegurado por acordos internacionais e pela própria posição brasileira em fóruns globais: a consulta prévia, livre e informada. Ao atropelar esse compromisso, o Estado brasileiro sinaliza que interesses econômicos de grandes empresas valem mais do que a palavra de quem vive às margens dos rios e depende deles para sobreviver.
Desde 22 de janeiro, lideranças indígenas e ribeirinhas ocupam a área da Cargill no porto de Santarém, cidade que se tornou um centro estratégico do comércio global de grãos. A Cargill figura entre as principais beneficiadas pela hidrovia e tem histórico de conflito com comunidades locais. A ocupação expôs a assimetria de forças na região: de um lado, corporações multinacionais apoiadas por políticas públicas; de outro, populações que precisam se mobilizar para proteger o mínimo — o direito de continuar existindo em seus territórios.
A suspensão do edital não resolve o problema. O decreto permanece ativo e permite que, a qualquer momento, o projeto seja retomado. Lideranças denunciam que o governo encerrou negociações sem apresentar alternativas e lembram que a obra não tem relação com melhorar o abastecimento nacional. Trata-se de garantir velocidade a um circuito global de lucro que trata a Amazônia como entreposto e os rios como obstáculos a serem escavados. O país enfrenta uma escolha política e moral. Pode reforçar um modelo que transforma rios amazônicos em infraestrutura descartável ou pode reconhecer que esses rios sustentam culturas, economias locais e um equilíbrio ambiental que não pode ser reconstruído depois de destruído. Os povos do Tapajós exigem que o Brasil escolha a vida das águas antes que seja tarde. O alerta deles não é retórico. Rios que morrem não voltam. E um país que permite isso abdica do seu próprio futuro.
Rudinei Borges dos Santos, professor da Universidade Estadual do Amapá