Transcrição da fala de Markus Sokol no Comitê Nacional do DAP em 17 de janeiro de 2026

[Esta apresentação foi feita 6 dias antes da greve de Mineápolis, que traz um dado novo no patamar da resistência nos EUA, e deve alavancar as Jornada Continental de Março – NdE]

O informe apresentado ao Fórum Econômico Mundial de Davos prevê 10 anos de turbulências e convulsões globais, enquanto que o relatório publicado pelo Banco Mundial diz que a economia mundial revela “resiliência”, inclusive nos EUA (não na América Latina). Parece uma contradição, mas não é. Para não falar da bolha da I.A., é o produto doe encadeamento de um tipo de crescimento que gera desigualdade extrema, social e nacional.

Então, é uma situação que gera um grau de incerteza. Quem se acha responsável pelo mundo, no caso Trump que não quer a perda de hegemonia dos EUA, decidiu agir. E fazendo um salto inédito no ato de guerra na Venezuela no dia 3 de janeiro, que foi uma mensagem ao mundo, na verdade. O imperialismo não encontra meios, nem utilizando os meios extraordinários que vinha utilizando, como aquela taxação indiscriminada unilateral, para de garantir-se um futuro suficiente para enfrentar as demandas sociais e a concorrência, então, vamos ter a luta de classe.

Por isso, se publica a nova “Estratégia de Segurança Nacional” do Trump, que coloca as Américas na linha de frente, diferente das doutrinas anteriores, com três eixos: conter a migração em massa, combater o narcoterrorismo, e preservar o acesso irrestrito aos suplementos críticos, quer dizer, petróleo, minerais. Está escrito assim, duas vezes, nessa ordem. Além de marginalizar a China no mercado local. Num certo ponto, diz que vai “recompensar os governos, os partidos e os movimentos (!) que se alinharem amplamente com essa pauta”, e depois diz que “com flexibilidade, vai buscar também relações com os governos que estejam dispostos a cooperar”. Então, a gente tem aí a equação da Doutrina Monroe (“América para os americanos”) com o “Colorário Trump”, bastante claro e objetivo, né?

Eles não estavam blefando. Foi publicado no dia 4 de dezembro e começamos a ver aplicado no último dia 3, na Venezuela. Na América do Sul, que nunca houve isso de ato de guerra yankee, os precedentes são América Central e Caribe, “quintal dos EUA”. Mas a ofensiva mundial não é nova, já existia antes – no “plano de paz” para Gaza, após apoio de genocídio, por exemplo – mas temos uma escalada.

Você tem aí na parte final do “corolário Trump”, um sinal claro para os países da América do Sul que tem eleições agora, Colômbia, em maio, e Brasil, em outubro. Ou se dobram na forma da “cooperação flexível”, ou serão atingidos de algum modo, não necessariamente como a Venezuela. Isso aí não é grátis, não é bem visto pela opinião pública no continente e em escala mundial. Mas na medida que as organizações tradicionais, partidos, as centrais sindicais, e certos governos, não reagem à altura como deveriam e poderiam, ao contrário, em alguns casos até travam a reação, então há um processo de rupturas que a gente precisa levar em conta. Rupturas que a gente viu na Conferência do México, rupturas que a gente viu no Comício de Paris e rupturas que a gente vê em formas e graus, mesmo no Brasil.

No que tange à Venezuela, a questão central é liberdade para Maduro. Nada menos que liberdade para Maduro. Quando digo nada menos, é porque tem organizações políticas, sindicais, governos, digo o governo brasileiro, que não pedem a liberdade para Maduro. Condenam a agressão militar, alguns, outros só sua forma, no caso da Europa (o governo brasileiro condenou), mas não vão até o fim e, desse modo, dão um sinal de aceitação, no fundo.

Ora, acompanhamos a situação interna à Venezuela com as informações que nos chegam. Não quero aqui fazer um julgamento, mas está claro que o governo da presidente interina está em face de uma encruzilhada. Houve um golpe, teve um recuo, ok, mas tem uma encruzilhada: ou ela aceita uma tutela, como o imperialismo anuncia, ou ela reage, apoiada nas forças sociais internas reorganizadas e mesmo convocando em escala do continente um enfrentamento com o imperialismo. Não tem a longo prazo, a médio prazo, eu acho, outra saída.

Bem, passando ao Brasil. Aqui, a coisa esse ano vai ser dura. Insisto na palavra dura, porque há um sentimento disseminado, veiculado desde a cúpula do partido, de que as vitórias obtidas, algumas das medidas que foram votadas (IR), a crise na extrema direita depois se ligou abertamente à bandeira estadunidense no momento das sobretaxas, que tudo isso criou um cenário tal que a gente é favorito, para resumir. Não que a gente não o seja nas pesquisas, mas se vocês olharem com atenção, nem tanto, pois a desaprovação de Lula é maior que a aprovação hoje, e até o 2º turno tem chão. A situação é bem complexa, a vida vai ser dura, sobretudo se o governo e o PT não derem o combate.

Foi votado no final do ano ao apagar das luzes a dosimetria. Mesmo se o Lula vetou, o Congresso vai reabrir a questão para derrubar. A dosimetria é um acordão com os golpistas e, através deles, com os grandes empresários que a eles estão ligados para mil canais. Possivelmente derrubado o veto, o Supremo Tribunal Federal, esse aí, vai declarar a inconstitucionalidade do PL do acordão do centrão? Quero testemunhar, que no ato público em São Paulo no dia 8, no Salão Nobre da Faculdade de Direito, Genoíno fez uma excelente intervenção denunciando o acordão atrás da dosimetria. Foi o orador mais aplaudido. E recebeu pronta-resposta grosseira de um deputado da Rede Sustentabilidade, “aliado”, que discordou de falar de Venezuela para começar, e depois, com os dois pés no peito, apesar da sala motivada, atacar que acredita que no Congresso vai “convencer os deputados”. Convencer de quê? Já não convenceu na primeira votação! Então, aí está se tratando de alguma coisa no lugar da outra, negociada.

Vocês vejam que há coisas em curso. O bolsonarismo, de alguma maneira, se rearticula. Mas, o principal para nós, são as pautas populares. E a pauta popular, entre outros itens, tem a questão da jornada 6×1. Essa seria uma reforma nas relações de trabalho, não é a revolução socialista, mas é uma reforma para valer, que toca os trabalhadores. Porque o IR melhora relativamente a situação de uma camada, é importante melhorar a situação de alguns. Mas não toca realmente nas grandes fortunas que permitiria melhor para a esmagadora maioria.

Mas o 6×1 implica mexer com muitos patrões. Haverá uma campanha pelo 6×1, ou vai ficar um item da plataforma que o Congresso a ser eleito trate, como tem tratado as questões do trabalho. Reforma da Previdência, reforma trabalhista, foi ele que votou e os STF sacramentou. Então, aí, há necessidade de uma campanha, em qualquer caso, no 1ª semestre antes do 1º Maio, já para o 8 de março.

Senão, a gente ficará prisioneiro das contradições do governo. Por exemplo, a assinatura agora do acordo Mercosul com a União Europeia. Foi conduzido por Lula, não foi empurrado, ele conduziu. O acordo não é bom para o Brasil, é bom para a União Europeia. Entendido as grandes empresas e as grandes fortunas. Porque para os camponeses da Europa não, boa parte mobilizados contra, e no Brasil o beneficiado vai ser o agronegócio. Os trabalhadores de uma maneira geral, campo e cidade, à medida que a importação for aberta, tendem progressivamente a ser prejudicados. E nós sabemos que os tratados de livre comércio são um dos fatores da migração, e não secundário. Em alguns países foram um fator-chave no continente. Essa é uma contradição.

Outra contradição é a política de alianças do governo que está se construindo, e pouco a pouco vem à tona. Fiquei chocado vendo na imprensa que na Paraíba o Lula vai ter dois palanques de direita. PT Saudações. Será o único caso ou é a ponta do iceberg? A política de aliança tem contradições em todo lado. Ela vai ajudar a campanha? Não! Ela vai avançar? Reunir condições para um avanço? Também não!

Vou dedicar pouco tempo porque há um artigo recém-publicado no nosso boletim, sobre esse escândalo da República, muito mais do que bancário, que é o caso Master. Com o papel do tal Zettel, o cunhado de Vorcaro, o maior doador das candidaturas de Bolsonaro e Tarcísio; temos a maneira como o STF de Tóffoli se lança no processo; o próprio Alexandre Moraes com um comportamento discutível, enfrentando o Banco Central, em tese, o órgão regulador, defendido pelos bancos privados, pelos quais não tenho nenhum amor; e a Polícia Federal, que nesse caso é vítima, atacada pelos chefes da corrupção e os da bandidagem. E quando eu falo bandidagem, eu falo PCC, que está atrás do Reag relacionado com o Master, o nosso artigo explica. É uma peça mais da podridão institucional. Temos que refletir sobre como introduzir, tínhamos começado essa discussão, a questão da Reforma Política e da Constituinte no debate público durante a campanha eleitoral.

Um Encontro do DAP ao longo do ano seria necessário? Não precisamos decidir hoje, estou levantando aqui, tem que ver as condições.

Depois, nós temos que tirar um GT para discutir uma plataforma ou pontos de plataforma que a gente levantaria nas eleições federais e legislativas, dos candidatos do DAP e para discussão com os demais. Acho que sob o dístico geral “Avançar”. O governo tomou algumas medidas, mas tomou vários gols, né? Mas o jogo mal começou e está longe de estar ganho. Não vou aqui dar placar, mas é evidente que precisa “Avançar”, acho que esse deve o mote geral da plataforma.

Aí nós temos coisas práticas, no próximo período a mais importante é a Jornada em Defesa do Direito à Migração e em Defesa da Soberania Nacional em março, que agora com a questão da Venezuela tem uma luz maior. Mas eu deixo isso porque tem um ponto específico na sequência. Temos o 8 de Março, Dia da Mulher Trabalhadora, que implica num encaminhamento aqui.

Termino sendo pontual sobre o Congresso do PT, em abril: não sei se sabem, as delegações vão ter 50% da delegação ao Encontro passado. Nosso caso é 8, 4 homens e 4 mulheres com cota de negro e cota de juventude, um negócio estreito. E não está previsto debate nenhum preparatório, os delegados já foram eleitos e boa noite. Tem uma discussão de “Programa do PT” meio empacada. Plataforma eleitoral será outro ponto. Vamos acompanhar os que tentam convencer a tirar esse ponto de programa da pauta por falta de preparação e de oportunidade. Zé Dirceu é o responsável da Comissão de programa. A comissão terá pouco dias até o DN de 6 de fevereiro que teria que aprovar. E depois tem a questão do novo estatuto que deixo para a Priscila que é membro da comissão, mas também ainda não há projeto.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *