Por que são tão poderosas as manifestações pró-Palestina na Grã-Bretanha

Intervenção de Haim Bresheeth na reunião pública organizada pelo POI, em Paris, 29 de janeiro.

Haim Bresheeth, professor emérito da Universidade SOAS de Londres e cineasta, filho de sobreviventes dos campos de extermínio nazistas, ex-oficial do exército israelense e depois militante pacifista e antissionista, membro fundador da Rede Judaica para a Palestina.

Estou feliz por estar aqui novamente, 10 meses depois daquele magnífico encontro em maio de 2024, que foi o ponto de partida para tantas coisas. Obrigado ao POI por organizar esta iniciativa.

As milhares de pessoas que trabalham arduamente conosco são o principal motivo do nosso sucesso e do tamanho das nossas manifestações, mas há outras razões.

A Grã-Bretanha é diferente de qualquer outro país europeu. Além de ter sido o maior império colonial, responsável por destruições e injustiças em todo o mundo, a Grã-Bretanha também é a autora da tragédia palestina, porque tudo começou em Londres, em 1916-1917, no gabinete britânico, com a Declaração Balfour (1), que concedeu aos sionistas, um grupo que não tinha nenhum direito de receber, aquilo que a Grã-Bretanha não tinha direito de dar.

Nenhum habitante da Palestina foi consultado se queria entregar sua terra ao movimento sionista. Após décadas de uma campanha educativa, as pessoas conhecem melhor a história do sionismo e do apoio britânico ao projeto colonial sionista na Palestina. E é por isso que, na Inglaterra, a população se sente responsável pela situação.

Duas outras forças são responsáveis pelo sucesso das nossas mobilizações. Por um lado, a embaixadora que, bem no início do genocídio, ousou dizer que Israel deveria matar 600 mil palestinos em Gaza, assim como os EUA e a Inglaterra fizeram na Alemanha em 1945. Seria de se esperar que, depois de dizer isso, ela estivesse sendo julgada pelo Tribunal Penal Internacional, mas não, ela ainda está lá, ainda com os mesmos propósitos. E eles nos tornam muito populares, tornam o bloco judeu muito popular.

Eu falo como israelense, como judeu, como socialista, mas também como filho de dois sobreviventes do Holocausto. Quando nós, 25 sobreviventes e filhos de sobreviventes, nos encontramos nas manifestações, as pessoas vieram nos abraçar, nos parabenizar, e quando eu disse: por que vocês estão nos parabenizando? Nós trocamos agradecimentos por termos vindo: não havia diferença, estávamos todos lá para apoiar a Palestina. Assim, o sionismo, curiosamente, desempenhou um papel importante na mobilização de apoio à Palestina na Inglaterra.

Os judeus viveram por 2 mil anos na Europa e por mais tempo ainda no Oriente Médio, no norte da África e na Arábia, na Ásia Ocidental. Durante esses milhares de anos, jamais estiveram envolvidos na prática de genocídio. Tampouco em colonialismo. Os judeus eram uma sociedade civil, apesar do ódio que sofreram durante todo esse tempo na Europa.

Não era o caso no Oriente Médio, onde árabes e judeus viviam em boas relações. Com cristãos, muçulmanos, em todo o mundo árabe, eles viveram em paz, convivendo e coexistindo por 800 anos na Andaluzia. E trabalharam juntos, judeus, muçulmanos e cristãos, criaram as bases do Renascimento e o desenvolvimento das artes e da filosofia, e graças a eles podemos ler as tragédias e as comédias escritas na Grécia antiga. Caso contrário, a cristandade teria se livrado delas. Assim, temos uma dívida em relação à convivência daquela época.

E queremos desenvolver a ideia de que na Palestina vivemos juntos milhares de anos e que o único momento em que isso foi destruído foi durante as Cruzadas. Quando as Cruzadas chegaram a Jerusalém, mataram todo mundo: judeus, muçulmanos, mas também cristãos. Porque eles consideravam que os cristãos que viviam com judeus e muçulmanos não eram confiáveis. Este é o único incidente de ódio racial em 2 mil anos de Palestina que pode ser registrado.

Agora, em todo o Ocidente, porque a maioria vive no Ocidente, espera-se que os judeus concordem com o genocídio. (…) Dezenas de milhares de judeus na Grã-Bretanha são antissionistas, são contra o genocídio e continuarão a lutar contra isso, juntos e com vocês.

(1) A Declaração Balfour (nome do ministro das Relações Exteriores britânico que a assinou em nome do seu governo) concedeu ao movimento sionista estabelecimento de um “lar judaico” na Palestina.

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