Bolívia: o levante popular e a luta contra o imperialismo

Renê Munaro, membro da Executiva da CUT e do DAP-SC, voltou na semana passada de La Paz onde foi representar a CUT, e nos deu este depoimento.

Rodrigo Paz (“centro-direita”) assumiu a presidência da Bolívia em novembro de 2025, encerrando o ciclo de governos do Movimento ao Socialismo (MAS). Em meio à crise econômica e à divisão interna, as candidaturas oriundas do partido não obtiveram mais de 7% dos votos. Evo Morales, impedido de concorrer, apoiou o voto nulo.

Já no início do governo, Paz retomou relações com os EUA, com a volta das ações da DEA (Drug Enforcement Administration), restabeleceu relações com Israel e assinou o “Escudo das Américas” ao lado de Trump.

A publicação do Decreto Supremo nº 5503, em dezembro de 2025, totalmente adaptado ao programa de Trump, que não constava da campanha, foi apresentado como pacote de emergência para enfrentar a crise. Mas gerou forte reação da COB que iniciou manifestações e bloqueios em todo o país no 1º de maio, seguida pelos camponeses, professores, vizinhos e outros. Nesse processo cresceu a exigência de renúncia de Paz.

O decreto deu poderes extraordinários ao Executivo para adotar medidas de desregulamentação e privatização, no modelo de “fast track” que permitia a iniciar operações em no máximo 30 dias, além de retirar subsídios dos combustíveis, provocando aumento de até 130% na gasolina e no diesel.

Também previa benefícios ao setor empresarial como isenções tributárias, além do congelamento de salários de servidores e decisões por decreto, sem aprovação prévia da Assembleia Legislativa, atacando a Constituição.

Em abril, o governo adotou a Lei 1.720, a “Lei de Reconversão de Terras”, que reclassificava pequenas propriedades como médias, sob o argumento de facilitar financiamentos. O movimento camponês denunciou que a medida favoreceria grandes proprietários para recompras, ameaçando a conquista da Reforma Agrária de 1952.

Foram 50 dias de bloqueios em mais de 100 pontos em todo o país, houve centenas de presos e 22 mortes.

Mas a COB e o governo firmaram um acordo para encerrar os bloqueios. O movimento camponês Tupak Katari (a principal organização que ficou à frente dos bloqueios) não assinou. Mas não havia um comando nacional, e ele entendeu que não teria condições de manter os bloqueios após o desgaste de 50 dias – havia desabastecimento de alimentação e produtos básicos. Por fim, o governo anunciou o decreto do estado de emergência (estado de sítio) por 90 dias.

O acordo da COB abandona a posição do movimento instalado de exigir a renúncia Rodrigo Paz. Não libertou os presos das manifestações nem a anulação de nenhum processo, que eram pré-requisitos para o movimento antes de qualquer discussão com o governo.

O Tribunal Supremo de Justiça e o presidente da Câmara dos Deputados, Roberto Salazar, afirmam que o acordo entre Paz e a COB não interromperá os processos contra participantes dos bloqueios, acusados de golpe de Estado, terrorismo etc.

A extrema-direita defende que o estado de sítio só terá cumprido seu objetivo com as prisões de Evo Morales, Vicente Salazar (Túpac Katari) e Mario Argollo (COB). No dia 5 de julho, Salazar foi preso, enquanto os processos contra Argollo avançam.

Mas é Evo o alvo, acusado de dirigir as manifestações desde o Chapare, em Cochabamba, onde se esconde para evitar sua prisão há mais de um ano.

A situação econômica deteriora as condições de vida. Mesmo com o fim dos bloqueios, o abastecimento de combustíveis não foi plenamente restabelecido pois o governo tem dívida milionária com fornecedores. As filas continuam quilométricas.

Os produtos da cesta básica tiveram aumento de até 300%, enquanto os trabalhadores já amargavam perda de 30% do poder de compra. A mudança do regime cambial gerou disparada dos preços desde 27 de junho, com a desvalorização da moeda.

Demissões e ameaças de privatização seguem na pauta, agora chamada de “medidas para reconstruir o país”, incluindo uma reforma trabalhista.

A situação que gerou a revolta popular não foi resolvida, ao contrário, a tendência é ao seu agravamento. Paz, apoiado pelo imperialismo, lançou mão do estado de sítio para aprovar as medidas contra o povo e a soberania do país. Resta saber se o estado de sítio será capaz de conter numa eventual nova revolta, se as organizações políticas, sindicais e populares conseguirem coordenar-se em um comando. A luta de classes definirá as cenas dos próximos capítulos.

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