“Que a minha voz hoje seja também a voz dos milhares que continuam presos”
Em Governador Valadares (MG), na Audiência na Câmara Municipal que marcou a Jornada Continental em Defesa do Direito à Migração, em 12 de agosto, Vivian Oliveira fez uma fala emocionante, uma voz viva que se levanta contra a brutalidade do governo Trump contra os migrantes.
Vivian tomou contato com a Jornada numa panfletagem de rua convidando para a Audiência. Ela se fez presente e com seu depoimento trouxe energia para prosseguirmos a luta. Abaixo publicamos alguns trechos de sua fala.
Misa Boito, Comitê Nacional do DAP
Não estou aqui hoje apenas como brasileira, mas como alguém que passou 213 dias presa sem ter cometido crime nenhum. Durante oito meses, meu nome deixou de existir. Eu deixei de ser Vivian.
Dentro do sistema de imigração dos Estados Unidos, passei a ser apenas um número: A22 12 17 27 1.
Estou aqui hoje para dizer o que precisa ser dito com coragem: migrar não é crime.
Migrar, para milhões de pessoas no mundo, é muitas vezes a única forma de continuar vivendo. Fui presa entre agosto de 2024 e abril de 2025. Foram oito meses de angústia, dor e sofrimento.
E é importante lembrar que o Brasil já reconhece esse princípio fundamental. Porque migrar não é um crime. Migrar é um direito humano.
Mas dentro das prisões de imigração americanas, o que eu vi foi exatamente o contrário disso.
Eu vi mulheres sendo abusadas de todas as formas possíveis. Elas não estavam ali porque cometeram crimes.
Elas estavam ali porque cruzaram uma fronteira. Mulheres tentando salvar suas próprias vidas e garantir sobrevivência para suas famílias.
Nas prisões convivi com mulheres de muitos países. Muitas delas fugindo da guerra, muitas fugindo de regimes de opressão. Mulheres sobreviventes.
Vi mulheres sendo sedadas à força, inclusive eu. Presa por castigo em uma cela de vidro, totalmente nua sendo observada noite e dia por todos que passaram. Um aviso às outras detentas de que questionar qualquer direito traria castigo, aquele castigo.
Durante um período em Louisiana houve um surto de tuberculose. Duas mulheres morreram. Nós ficamos mais de um mês em quarentena, 60 mulheres em uma única cela, sem ar puro, recebendo apenas uma garrafa de água por dia.
Quando finalmente chegou o dia da minha deportação, pensei que aquele pesadelo iria terminar. Mas ainda havia mais um trauma. O oficial responsável pelo meu caso faltou ao trabalho. E levou para casa meus documentos pessoais. Fui deixada para trás. Algemada, sem explicação.
Foram quase duas horas de negociação para que minha deportação finalmente acontecesse. Só então fui levada algemada, e fiquei até que o avião começou a descer em solo brasileiro.
Hoje eu estou aqui porque precisamos ter coragem de falar. Precisamos falar sobre os direitos dos migrantes. E precisamos falar sobre soberania.
No mundo em que vivemos hoje, o capital atravessa fronteiras livremente, as mercadorias circulam livremente. Mas quando um trabalhador atravessa uma fronteira em busca de dignidade, ele é tratado como criminoso.
Que a minha voz hoje seja também a voz das milhares de pessoas que continuam presas dentro desse sistema neste exato momento. Um sistema que lucra com a prisão de pessoas que não cometeram crimes.
Precisamos dizer isso com clareza: as prisões de imigração nos EUA fazem parte de uma indústria bilionária de encarceramento de migrantes.
Quando finalmente o avião pousou em solo brasileiro começou um outro tipo de desafio. O desafio de recomeçar do zero. Ser deportado não significa apenas voltar para casa.
Significa voltar muitas vezes sem documentos organizados, sem trabalho, sem estrutura emocional, sem rede de apoio e sem políticas públicas preparadas para receber essas pessoas.
E, infelizmente, ainda existe muito pouca política pública estruturada para apoiar a reintegração dessas pessoas na sociedade. A deportação não termina quando o avião pousa. Para muitas pessoas, ali começa uma nova luta.
Por isso, falar sobre migração também é falar sobre responsabilidade do Estado brasileiro. Precisamos construir políticas públicas que acolham, orientem e apoiem brasileiros deportados”
Assista a íntegra da fala: