”Migrantes”, “narcoterrorismo” e “Escudo das Américas”: Trump ameaça Brasil, México e Colômbia
O combate ao “narcoterrorismo”, usado como justificativa cínica para ações militares estadunidenses na Colômbia e na Venezuela, dá passos no continente. Trump usa novamente essa desculpa para buscar interferir no Brasil, México e Colômbia, e seguir com a aplicação de sua “Estratégia de Segurança Nacional”, desdobrada agora em seu “Escudo das Américas”.
A “Estratégia” de Trump, publicada no final de 2025, é clara em seus três objetivos: frear a “migração ilegal e desestabilizadora”, neutralizar o “narcoterrorismo” e “garantir os suplementos críticos”. Para tanto, o documento anuncia “recompensas aos governos, partidos políticos e movimentos que se alinharem amplamente” com a agenda estadunidense.
Em 7 de março, Trump reuniu, na cidade de Doral, Flórida, os presidentes da Argentina, El Salvador, Paraguai, Equador, Panamá, Honduras, Guiana, Bolívia, Trinidad e Tobago, Costa Rica, República Dominicana e Chile. A coalizão forjada entre os que aceitam uma obediência a Donald Trump foi batizada de “Escudo das Américas”. Além do “combate à migração ilegal em massa“ e ao “narcoterrorismo”, o objetivo também é combater a “interferência estrangeira maligna”, ou seja, os negócios realizados no continente com a China.
“Vocês têm minha permissão para não escutar”
No pré-evento, Stephen Miller, vice-chefe de gabinete de Trump, sem nenhum constrangimento, afirmou para uma plateia de 16 ministros da Defesa e generais da América Latina: “Assim como combatemos a Al-Qaeda e o ISIS com armas extremamente letais, a razão pela qual esta é uma conferência com líderes militares e não uma conferência de advogados, é porque essas organizações só podem ser derrotadas com o poder militar”. E concluiu: “Vejo cabeças assentindo porque – tenham certeza – entendo que vocês estão lidando com muitos advogados em seus próprios países. Vocês têm minha permissão para não escutá-los”.
A “permissão” estadunidense é uma afronta à soberania nacional e traz consigo lembranças do papel dos militares latino-americanos durante as ditaduras.
A denominação das facções criminosas como narcoterroristas visa facultar às forças americanas, segundo uma lei local, intervir onde quiserem. Aqui, não deixa nenhuma dúvida sobre como Trump chantageia o Brasil, México e Colômbia para “cooperar” como a Venezuela. Ele conta com o apoio de figuras como o governador Tarcísio de Freitas (REP/SP), que viu nisso uma “oportunidade”. Em outubro de 2025, após a maior chacina policial da história do país (128 mortos no Complexo da Penha, RJ), a oposição ao governo Lula já havia defendido que eram narcoterroristas , pedindo intervenção dos EUA no Brasil.
Lula revoga visto de assessor de Trump
A “química” com Trump está em questão. Darren Beattie, conselheiro sênior sobre o Brasil do Departamento de Estado do governo Trump, se convidou para visitar o TSE e também Bolsonaro na Papudinha. Alexandre de Moraes concedeu autorização para a Papudinha mas depois voltou atrás, a pedido do Itamaraty. Na sexta (13), Lula disse que Beattie só poderá entrar no Brasil quando Padilha, seu ministro da Saúde, puder entrar nos Estados Unidos. Na sequência, o Itamaraty revogou o visto de Beattie.
Faltam pouco mais de sete meses para as eleições. Trump já mostrou que conta com aliados para intervir. Para derrotar, Flávio, sabujo de Trump, é preciso coesionar a base social do governo e do PT, colocar o bloco na rua e mostrar disposição em realizar mudanças adiadas. Só a classe trabalhadora, lutando por suas reivindicações, tem condições de defender a soberania nacional até as últimas consequências.
Marcelo Carlini, membro do Diretório Estadual do PT-RS