Pela paz e soberania da Venezuela

“Continua na ordem do dia para todos os democratas e anti-imperialistas, independente da opinião que se tenha sobre o governo Maduro e sua política, a mais ampla campanha em defesa da paz e da soberania da Venezuela.” Leia o artigo publicado no Jornal O Trabalho 843 e a resolução da Direção Nacional do PT.

Venezuela: jogo bruto do imperialismo para gerar o caos

O último 23 de fevereiro tinha sido anunciado pelo “presidente autoproclamado” Juan Guaidó e seus mentores dos Estados Unidos como o fim do governo de Nicolás Maduro, com a entrada da “ajuda humanitária” levada à fronteira da Colômbia com a Venezuela.

A operação fracassou. Seu objetivo era forçar a entrada de caminhões com o apoio de uma massa que iria buscar a ajuda, o que provocaria a divisão nas Forças Armadas que romperiam com Maduro, o que não ocorreu.

A grande mídia e os governos alinhados com Trump tentaram encobrir esse fracasso com “fake news”, como a que dizia que Maduro era tão cruel que mandara tocar foco em mantimentos enquanto seu povo passava fome! Foi preciso esperar alguns dias até o jornal New York Times divulgar que quem tocou fogo num caminhão na fronteira foi gente paga por opositores de Maduro e do lado colombiano!

Mas o mais importante em 23 de fevereiro foram as grandes manifestações contra a ingerência do imperialismo na Venezuela, em defesa da paz e da soberania nacional que tomaram as ruas de Caracas e outras cidades do país, dando um fôlego para Maduro.

Volta de Guaidó e apagão

O fantoche Guaidó, que havia passado a fronteira em Cúcuta na Colômbia no dia 23, de lá partiu para uma turnê no Brasil, Paraguai e Argentina, onde foi recebido pelos governos pró-imperialistas desses países, antes de regressar à Venezuela em 4 de março, em pleno Carnaval.

O governo Trump apostava numa prisão de Guaidó ao chegar no aeroporto, aonde diplomatas de países que o reconhecem o esperavam, para aumentar a pressão pela saída de Maduro. Mas o governo o deixou entrar e até fazer comícios, tentando isolá-lo como agente de uma guerra que nenhum venezuelano deseja.

Em 7 de março, a maior usina hidrelétrica do país, Guri, teve todo o seu sistema de controle, que é informatizado, atacado por “hackers” que operaram desde Houston e Chicago nos EUA, o que provocou um apagão de cerca de 100 horas na maior parte do país.

Poucos minutos após o início do apagão, Mike Pompeo, assessor de Trump, tuitou “os venezuelanos estão sem comida, sem remédios, sem ener-gia elétrica e logo mais sem Maduro”, prevendo que seria impossível que ele se mantivesse no poder dado o caos que seria criado com a falta de energia elétrica e o efeito que teria no povo e nas Forças Armadas.

Trata-se da chamada “guerra híbrida”, já aplicada pelos EUA em outros lugares, em mais um de seus capítulos. Mas, no fechamento desta edição, a energia elétrica havia sido finalmente restabelecida em todo o território da Venezuela e o governo Maduro seguia de pé. O que não quer dizer que a situação tenha se estabilizado, ao contrário ela segue muito perigosa.

Assim, continua na ordem do dia para todos os democratas e anti-imperialistas, independente da opinião que se tenha sobre o governo Maduro e sua política, a mais ampla campanha em defesa da paz e da soberania da Venezuela e de seu povo contra qualquer agressão externa do imperialismo e seus aliados: Trump, tire suas patas da Venezuela!

Lauro Fagundes


Resolução do PT pela paz na Venezuela

O PT conclama todas as forças políticas, internas e externas, a que se empenhem na busca de uma solução pacífica, negociada e democrática para a crise na Venezuela.

O Partido dos Trabalhadores, desde seu nascimento, se posiciona pelos princípios da autodeterminação dos povos, da não intervenção e pela solução pacifica dos conflitos. Esses princípios, nos governos do PT, foram os que nortearam política externa altiva e ativa e colocaram o país na vanguarda da construção da paz e do diálogo frente aos conflitos na região latino-americana e no mundo.

Manifestamos total discordância em relação à participação do Brasil na ilegal intervenção na Venezuela, liderada pelos EUA ao reconhecer como governante legitimo o autoproclamado Juan Guaidó, e mal disfarçada de “ajuda humanitária”. A lamentável participação do Brasil em tal intervenção resulta de adesão ideológica e acrítica aos interesses de uma facção política extremada de um Estado estrangeiro, e não da observância racional dos autênticos interesses nacionais. Na realidade, essa participação contrapõe-se aos interesses brasileiros.
Em primeiro lugar, ela colide com os princípios constitucionais que regem nossa política externa, notadamente o da autodeterminação dos povos, o da não-intervenção, o da defesa da paz e o relativo à solução pacífica dos conflitos.

Em segundo, ela afronta os objetivos da Política Nacional de Defesa, da Estratégia Nacional de Defesa e do Livro Branco de Defesa Nacional, cujas últimas atualizações foram aprovadas pelo Congresso Nacional, mediante o Decreto Legislativo nº 179, de 14/12/2018. Observamos, a esse respeito, que a Política de Defesa Nacional, amplamente debatida com toda a sociedade e aprovada por unanimidade pelo Legislativo, determina que a Defesa Nacional do Brasil será realizada levando em consideração, entre outras, as diretrizes de “privilegiar a solução pacífica das controvérsias” e de “repudiar qualquer intervenção na soberania dos Estados”.
Em terceiro, ela contrasta com a tradição diplomática do Brasil, de colocar ênfase em negociações, como forma racional de solucionar discordâncias entre países. Graças a essa notável tradição, que elevou o protagonismo regional e mundial de nosso país, o Brasil não tem conflitos militares com seus vizinhos imediatos desde o fim da Guerra do Paraguai.

Além disso, a intervenção ilegal contra a Venezuela, através de bloqueio desumano e perversas sanções econômicas, provoca sofrimento ao povo venezuelano e acirra o já grave conflito interno daquele país. Advertimos que a aposta irresponsável na exacerbação das tensões poderá resultar numa guerra civil violenta e até na internacionalização do conflito interno da Venezuela, o que transformaria nosso subcontinente numa região tão geopoliticamente instável quanto o Oriente Médio.

Nesse caso, o Brasil, que investiu durante décadas nas relações bilaterais com a Venezuela e na integração regional, com resultados econômicos e diplomáticos muito positivos, será extremamente prejudicado e terá seu protagonismo reduzido à quase nulidade. Os principais afetados serão, no entanto, a Venezuela e seu povo inocente. Os únicos que poderão ganhar com essa insanidade anunciada serão aqueles que pretendem monopolizar o acesso à maior jazida de petróleo do planeta.

Por último, o PT conclama todas as forças políticas, internas e externas, a que se empenhem na busca de uma solução pacífica, negociada e democrática para a crise na Venezuela.

Brasília, 23 de março de 2019.
Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores

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